Eu era feliz E SABIA! Esta afirmação contradiz o poeta, mas… o que fazer? Ao criá-la, talvez ele estivesse vivendo um instante daqueles a serem prontamente esquecidos. Em sã consciência: há como ser Feliz e não sabê-lo? A Felicidade é extasiante, gososa. Faz com que percebamos nossa alma, sintamos as diferenças que nos asseguram a semelhança com Deus e os privilégios com os quais Ele nos distingue, coisas que a azáfama do dia-a-dia não nos permite. Nós éramos felizes E SABÍAMOS! Nós, neste caso somos eu e o Leitor que me acompanha nestes dias em que retornamos às décadas de 50, 60 e 70, anos dourados de São Paulo, Cidade, para revivermos momentos felizes. Um "tour" virtual, ou mais: sonial. Uma revisita aos locais onde a Felicidade dança, evoluindo com graciosidade pelas pistas que proliferam na região que demarcamos como limite, o Centro Histórico da São Paulo, que tanto amamos. Uma performance que nos sugere ter ela, a Felicidade, tomado aulas com os Professores Pavão e Patrizzi. Levados pelas mãos da saudade, fomos aos grandes salões e se não coincidiu nos vermos em meio aos encantos da representação de um conto de fadas, tão presentes num baile de debutantes, ao menos compartilhamos da alegria de jovens se anunciando prontos para o enfrentamento da vida, com o anúncio à Sociedade de suas formaturas. Nos vimos ali, frente à Família exultante e aos amigos incentivadores. E dançamos, dançamos, dançamos… Dos grandes salões, fomos às "domingueiras". Revimos antigas namoradas, algumas levadas à sério, outras apenas "flertes". Cerrando os olhos, imaginamos nos bons "crooners", a audição de Lucho Gatica, Agostinho dos Santos, Maysa, Doris, Dalva… E não só dançamos juntos, colados: também nos soltamos, no twist de Chubby Checker, no rock romântico de Cely Campello, no rock agitado de Rita Pavone. E no balanço das horas, vimos pedras rolarem, impulsionadas por Bill Halley, seus cometas e até mesmo Elvis Presley! Da Jovem Guarda, nem falar: eram tantos que parecia uma festa. De arromba. E ao reabrirmos os olhos, pudemos ver nos palcos as fabulosas orquestras de Osmar Milani, Erlon Chaves, Enrico Simonetti… Até Ray Conniff veio! E dançamos, dançamos, dançamos… Se num momento anterior imaginamos que "o ato de recordar pode ser bem mais gososo que o instante relembrado", agora podemos afirmar com total segurança! E se ainda pudesse restar alguma dúvida, esta não resistiria ao passeio de hoje. Devo confessar: sinto-me angustiado. Motivo? Por maior que seja a certeza de que este dia também se fará repleto de Felicidade, ao seu término vamos ter que nos despedir! Espero que nos reencontremos logo, dispostos para um novo "tour", mas enquanto isso não vier… Foram dias especiais, tanto quanto as recordações trazidas. E Você sempre a meu lado, compartilhando alegria. Vivi emoções, algumas secretas e, pelo brilho de seus olhos, sei que V. também as viveu. Mas nada nos cobramos. Fomos ambos discretos, cavalheiros, adjetivos que caminham celeremente para o desuso. E por falar em discrição, vamos iniciar o passeio de hoje por locais onde ela é talvez a parte mais importante dos serviços prestados. Ambientes discretos, finos em sua maioria, ares de Europa, aroma de romance. Lugares onde alguns buscam conquistar amores, outros celebram os já conquistados. Amores que do lado de fora se ocultam e que, já adentrados, se derramam em doces olhares, meigos carinhos. Enquanto o Senador Nelson Carneiro não vencer sua quase quixotesca batalha pela implantação do divórcio e o desquite continuar a estigmatizar as mulheres, muitos casamentos continuarão buscando na farsa sua "estabilidade" e os "felizes cônjuges" procurarão em ocultos "casos" a plenificação do Amor. Assim cobra a hipócrita Sociedade, assim se solidificam estes estabelecimentos. Vienense! Olhe à volta – anos cinqüenta – e me diga: Paris é aqui? Ou talvez Viena, como sugere o nome? A elegância afirmada nas luvas, nos leques, nos chapéus deixados à porta… O tropical inglês – se nos imaginarmos à noite – e o linho cento e vinte, mesma procedência, se nos pusermos à tarde… O piano Schubert, as toalhas monogramadas, a porcelana com sotaque… Tanto quanto o local, os garçons somam à gentileza uma oportuna discrição. E a "típica", embora pequena no número de componentes, nos faz aflorar o romance, esteira que nos conduz ao centro do salão. E dançamos, dançamos, dançamos… Não fosse este nosso mergulho no passado um duto exclusivo para a Felicidade e teríamos que rever também a Vienense dos anos 60, já sem as toalhas monogramadas, sem o pianista alemão… E, chegando aos anos setenta, a triste constatação de sua aproximação às gafieiras, com o desfile de "canecalons", tomaras-que-caia, broches de strass… E camisas volta-ao-mundo, calças boca-de-sino, sapatos Vulcabrás… Pena! Mas, tristeza, por favor vá embora. Nossa alma só quer agora é curtir Felicidade. E então, allez!, rumo ao Salão Verde. Ah, de repente o "desconfiômetro" acende sua luz vermelha e percebo que já me estendi demais. E ainda há tanto para ver! O Salão Verde, o Bar Viaduto, onde não se dança, mas se prepara o convite… E as gafieiras, então? O Lilás, o Badaró, o Atlântico… E as pequenas e espremidas pistas das casas da Laura Garcia, o La Licorne, o Stardust… A Oásis… Isso é mau? Que nada! É mais um dia que teremos para juntos vivê-lo. Um dia a menos nas saudades, um dia a mais de Felicidade. Sem mais delongas e imensamente feliz, até amanhã!