Corria os finais dos anos 60, 1968 para ser mais preciso, e a nossa turma do Marina Cintra, colégio estadual na Rua da Consolação, se reunia para as aventuras pitorescas de nossa juventude. Eram anos difíceis e atormentados pelo período da ditadura militar e pelo corre-corre dos “perseguidores” e “perseguidos” daquele que hoje é considerado um grande momento histórico da democracia de nosso país.
Sim, os movimentos da ditadura militar de 1968 foi parte integrante e paralela em nossas vidas, mas conseguimos, muitos de nós, passar incólumes e sem arranhões pela vilania militar.
Bombas espocavam pelas praças e ruas, atentados aconteciam nas várias universidades, a exemplo do Mackenzie. Soldados em montarias avançavam sobre a “turba” estudantil, lançando gases lacrimogêneos e atiçando cães ferozes, o que promovia a grande baderna da repressão estudantil e política.
Nossa turma era mais pacata e, por vezes, depois das aulas e nos finais de semana, nos reuníamos em algum pacífico lugar, aproveitando a neutralidade das investidas dos militares, para traçarmos os rumos de nossas distrações que, em geral, seria em minha casa ou na casa de algum outro colega e, assim, direcionarmos o nosso roteiro que, por vezes, findava em um prazeroso final de semana na baixada santista, saboreando os gostosos impactos das ondas do mar.
Quando tudo isso se tornou cotidiano em nossas vidas, tivemos o convite (não sei de quem, no momento) para revitalizarmos um antigo ambiente que ficava nos fundos do colégio “Des Oiseaux”, que era exclusivamente feminino e dirigido pelas freiras da Ordem de Santo Agostinho. Ficava o colégio, na Rua Caio Prado, esquina com a Augusta sendo que o tal ambiente ficava, também, na Rua Caio Prado, em um anexo do terreno do colégio e com a entrada quase em frente à Rua Gravataí.
Tratava-se de uma espécie de clube de ambiente discreto, orientado por uma freira, a madre Esther, pessoa de branda energia e muito simpática que enxergou em nós uma possibilidade de reativar a movimentação juvenil do lugar com atividades culturais e encontros estudantis de nossa turma e, ao mesmo tempo, afastar-nos do grande inferno que as ruas ofereciam com os movimentos tidos como terroristas e as com as perseguições militares.
Enfim, conseguiu a madre, “matar dois coelhos com uma cajadada só”.
Nosso grupo era formado por mim, Zé Mendes (o Natal), Décio Schimit (o alemão), 'Sebastian' (não aquele da C&A), Rubens Campos, Maria Leonor, Rosinha, Cidinha, Celinha, Labadia (que tinha um interessante Fordson inglês, automóvel utilitário da época) e que veio a ser esposo da Celinha mais tarde e muitos outros que, me perdoem já me esqueci de seus nomes, mas suas fisionomias ainda refletem em minha mente.
Tínhamos como atividades os movimentos culturais como as festas juninas, bailes (os famosos bailinhos movidos à “velha” vitrola), festas de aniversários, comemorações cívicas, algumas pequenas gincanas, e por aí foram.
Por eu ser a pessoa que mais se impunha pelas ideias e decisões para o grupo, fui escolhido para presidir o clube (sem honorários) e por votação quase que unânime. A madre Esther funcionava como uma “tesoureira” e toda a arrecadação oriunda das colaborações angariadas iam “deliberadamente” para os interiores de suas meias, que calçavam suas pernas e lá ficavam bem resguardados e com a “sacra proteção” de seu hábito religioso, mas de corte bem moderninho, pois era um hábito bem cinturado e de comprimento 3/4, o que quer dizer que seu traje avançava até quatro dedos abaixo dos joelhos, mas era muito elegante e lhe conferia um ar bastante jovial e discreto.
Nossos bailes eram abastecidos com muitas bebidas e só aquelas permitidas para o local e, geralmente, eram refrigerantes ou alguns vários pacotinhos de “KiSuco” (eu, preferencialmente adorava os de sabor cereja). Bolos e salgados chegavam de nossas casas e a festa estava arrumada. A trilha sonora vinha em forma do velho e bom “vinil” e quem comandava o “hit parade” eram Roberto Carlos e os Beatles. Outros famosos também eram tocados, mas não com a frequência de “sucesso” dos dois primeiros.
Os “bailinhos” eram abertos ao público com a cobrança de simbólicas quantias para a manutenção do clube e seus poucos equipamentos.
Em uma das festas comemorativas reverenciamos as mães em seu dia especial. Como mestre de cerimônias, instalei no centro da área para as comemorações uma cadeira em que ninguém poderia se sentar. Perguntado o porquê daquela cadeira dizia-lhes: “Esta cadeira representa a mãe que não pôde estar presente neste dia de festas. Esta cadeira é para a mãe ausente e principalmente para a mãe que já morreu…”. Emoções afloraram em todos e até as mães que estavam presentes sentiram-se homenageadas por elas próprias e por suas mães, ausentes em vida ou pela morte.
Hoje, o clube da Madre já não existe. Assim como o velho colégio também sucumbiu a algum interesse econômico, não sei, mas enquanto vida exerceu o seu papel de educandário e o clube da Madre prestou-se aos seus propósitos como ramal de desvio para oferecer uma rota segura e tranquila para os jovens da minha geração e que, hoje, podem contemplar o passado e os perigos que aquela época ofereceu, mas que não ficou como página virada em nossa história.
“Sem querer fui me lembrar
De uma rua e seus ramalhetes,
O amor anotado em bilhetes
Daquelas tardes.
No muro do Des Oiseaux*
De uniforme e olhar de rapina,
Nossos bailes no clube da Madre*
Quanta saudade!
Muito prazer, vamos dançar
Que eu vou falar no seu ouvido
Coisas que vão fazer você tremer dentro do vestido,
Vamos deixar tudo rolar;
E o som dos Beatles na vitrola.
Será que algum dia eles vêm aí
Cantar as canções que a gente quer ouvir?”
“Rua Ramalhete", Tavito
* – nomes trocados propositalmente
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