O Carnaval, a borboleta e a Censura Federal

Em janeiro de 1973, eu estava gravando um áudio de voz para um comercial do Baú da Felicidade, no “Studio Cruzeiro do Sul” de propriedade do amigo Buzo, situado bem no meio do Centro Velho de São Paulo na Rua Conselheiro Nebias. Em um intervalo da gravação fomos até um bar e café na esquina com a Rua Vitória, para um merecido lanche e no bar o diretor da gravação, Renato Barbosa – irmão do Famoso Benedito Rui Barbosa (autor de novelas famosas), começou a rabiscar uma marcha rancho, que no final recebeu um titulo “A Borboleta Azul” e ficou assim:

“No carnaval eu vou sair de borboleta azul
Voando para o norte e para o sul.
A fantasia vai ser uma maravilha.
Eu vou pular até gastar a sapatilha.

Eu vou cantar bem alto até ficar bem rouca
E todos vão gritar, lá vai a bicha louca.

Zueira como essa eu nunca vi,
Vou ser eleita como o rei dos travestis.

Cruzes, que horror! (refrão – bis)
Eu vou desmunhecar prá refrescar o calor!”

O pessoal achou que a marcha era humorística e deveria ser gravada por mim, e não deu outra! Dois dias depois já com um belo arranjo musical, mais o coro pronto na fita do playback. Lá fui eu para o estúdio colocar a voz.

Gravei, saímos todos do estúdio, garantindo que seria a música mais tocada e cantada do carnaval de 1973.Fui para a casa feliz, achando que enfim faria um sucesso nacional, e iria faturar uma boa grana, e com isso comprar um novo carro, viajar, etc..

Mas como felicidade de pobre dura pouco, dois dias depois, praticamente faltando 18 dias para o Carnaval, fomos convidados pela Censura Federal que assolava o Brasil naquela época, pedindo o nosso comparecimento até as suas dependências que na época ficava na Av. Xavier de Toledo, para nos informar que a letra da mesma, fora vetada, para o bem do "bom" costume. (risos)

Hoje em dia, quando ouço determinadas músicas e seus conteúdos apelativos, mesmo achando-as verdadeiras drogas, fico com inveja pensando: “Como é bom a liberdade de expressão, e como os tempos mudaram”.

Mais tarde dei essa musica para a saudosa colega e comediante Consuelo Leandro, que passou a fazer muito sucesso cantando a mesma em seus shows, era sempre “bisada” e obrigada a repetir o mesmo numero novamente.

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