O "californiano economista" da sebe

Esta semana recomeçaram minhas aulas ao conservatório musical. Por estes azos de primícias letivas e anuais, sempre me recordo de uma personagem que retrata um grupo da desvalida e negligenciada parcela da população paulistana – e provavelmente de todas as cosmópolis símiles.

Trata-se da população sem-teto, que aos dilúculos vespertinos se acotovela sob as sebes de edifícios ou disputa centímetro por centímetro algum lugar onde recostar os ossos, indubitavelmente doloridos após horas de vagas sem destino pelas vias públicas, em busca de um emprego, esmola ou um prato de víveres que alguma entidade assistencial lhes ofereça.

Tinha duas aulas semanais: piano e teoria musical. Sempre ao findar da tarde e começos da noite, passava, respectivamente, ao endereçar-me ao conservatório e do mesmo retornar a casa, pela sebe de um edifício à esquina entre a Alameda Santos e Avenida Brigadeiro Luís Antônio, espaço então ocupado por uma pizzaria (“Dom Francesco”), depois uma loja de luminárias ("Luz em Luzes"), posteriormente por um salão de beleza ("Soho") e hodiernamente por uma das sucursais da rede de lanchonetes "Subway".

Sempre me deparava com um rapaz, andrajoso e com o semblante sulcado pelos árduos anos de vida ao relento. Confesso que, em minha azáfama, mal lhe fazia caso. "Mais um desafortunado, à espera de que as políticas governamentais possam auxiliá-lo", locubrava eu, sem pensar que muitas vezes cabe a nós, pessoas comuns, tomar a dianteira e tentar ajudar, se possível. Até que, aguardando que o semáforo abrisse aos pedestres, reparei que o herói desta narrativa folheava um exemplar da revista de economia "New Economist". Em meu preconceito, supus que meramente olhava as páginas, quando ele, que igualmente já deveria ter-me reparado, quatro vezes por semana passando pelo local, sempre carregado de livros e partituras, interpelou-me:
– "Você leu este artigo do New Economist deste mês?".
Tomado de surpresa pela pergunta e pela pronúncia do "o" tônico da palavra, extremamente aberto, quase um "a", ao gosto do dialeto inglês californiano, respondi-lhe com um lacônico "Não".

Ao que o meu recém nomeado professor californiano começou seu resumo crítico do artigo.
Sou ignaro assumido de assuntos de economia, a ponto de deixar que minha declaração de imposto de renda onere os ombros do "gênio das finanças" de minha família, meu irmão primogênito. Portanto peço escusas se falar um monte de bobagens, ao tentar reproduzir a fala do maltrapilho californiano.

Disse-me ele que "o autor do artigo mostra que o plano do ministro argentino da economia, o tal José Cavallo, propondo um índice de desindexação atrelado ao dólar, poderá ocasionar o descalabro das estruturas incipientes da indústria argentina, ao privilegiar o setor agropecuário". Jamais olvidarei as palavras "desindexação", "incipientes" e "descalabro". Atônito é pouco expressivo para minha absoluta estupefação. Quem seria aquele sem-teto, estudado em Califórnia, que falava inglês e tinha uma profunda compreensão da ciência de Keynes e Delfim Neto, a ponto de entender um texto sobre economia argentina?

Felizmente para este encabulado narrador, que não vira naquele brilhante ser humano senão um "apagado sem-teto", e não entendia uma palavra daquele discurso em "economês", abrira o semáforo. Atravessei a rua correndo para fugir de meu novo professor de economia californiano.

Nas semanas que se seguiram, não o tornei a lobrigar. Soube que fora levado a um abrigo de indigentes, por intermédio de um dos faxineiros dos prédios da vizinhança.

Espero que tenha sido contratado por alguma firma de assistência contábil, conquanto o mais provável é que esteja em algum albergue ou manicômio.

Não sei de quem tenho mais pena: dele, um talento desprezado por um possível surto psicótico; das autoridades, incompetente em lidar com estes tipos humanos; ou de mim, por minha ignorância e falta de iniciativa em ajudá-lo.

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