O bonde da Casa Verde

Plim, plim, plim, lá vem o bonde
Plim, plim, plim, lá vai o bonde;
De onde vem, para onde se destina?
– Vem do Centro, Rubino de Oliveira,
Da Vila Maria, Vila Sabrina,
Como bólido, espalhando faíscas incandescentes
Sobre os trilhos e dormentes
Tortuosamente fincados nesta Terra de Piratininga.

Em cada parada, um vaivém de pessoas aprumadas
Subindo ou descendo, soberbas, aceleradas,
Rumo ao trabalho ou sua triunfante volta ao lar:
– São paulistanos, paulistas, mineiros, baianos,
Brasileiros do sul, do norte, do leste e do oeste
E de além-mar: portugueses, espanhóis, japoneses,
E muitos outros que nesta terra aportaram
E que a escolheram para aqui fincarem suas raízes.

É quase madrugada, ainda ruas escuras,
Luzes ofuscadas pela fria e incessante garoa paulistana;
Na Praça Centenário, rostos sonolentos aguardam a vez do embarque…
Lá vem o bonde, trepidante, com seu condutor – o motorneiro –
Em seu traje de gala, triunfante!
E mais uma jornada se inicia, no seu pinga-pinga,
Em ziguezagues pelas ruas da cidade, ainda adormecida,
Mas pronta a cumprir seu destino, sem fadiga.

Homens, mulheres e garotos imberbes, ali estão:
Gorros à cabeça, cachecóis e capas a cobrir-lhes os corpos
– a proteção indispensável contra a garoa e o frio –
Em cada mochila, a marmita, a garantir-lhes a sustentação no trabalho.
E lá vai o bonde, descendo a Rua Inhaúma,
Ponte da Casa Verde á vista, com seus muitos campos de futebol,
– ladeados –
Silenciosos agora, mas repletos de vida, aos domingos,
Em sublimes momentos de intensa glória!

Bom Retiro, Barra Funda, o Centro está logo ali;
Lá vai o bonde, no seu plim, plim, plim insistente.
Em cada curva, um solavanco – um vai pra lá, vem pra cá
Despertando aqueles heróicos trabalhadores anônimos
Símbolos da grandeza desta terra que é de luta e esperança;
Ouve-se o plim, plim, plim da última passagem registrada-
– "Fim da linha", diz o cobrador, mais uma vez,
Porém, dizem as más línguas: "Não a última cobrada!"

Anoitece, e toda aquela gente sonolenta deste mesmo dia
– no seu amanhecer –
Ali está, todos atentos ao "Casa Verde"
Estampado na "testa" daquele monstro de madeira e ferro
Que logo surge, como um dragão, expelindo fogo,
Entre os trilhos e suas "patas" barulhentas
Agora em direção ao aconchego do lar,
Embalados pela sonoridade – e habilidades – do cobrador:
Plim, plim, plim, um pra Light, dois pra mim!…
Plim, plim, plim, um pra Light, dois pra mim!…
Plim, plim, plim…

Sou jornalista, residente em São Paulo desde 1957.
Casa Verde é o bairro onde permaneci por muitos anos
e o bonde, o meu meio de transporte. Quanto à história
em si, um outro dia escreverei mais a respeito.

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