O Boca

Polidoro Dagoberto era o seu nome no cartório do registro de nascimento. Devido à convicção de profundo ateísmo do pai, não havia sido batizado em nenhuma igreja, e também, não professava nenhum credo religioso. Chegara fatalmente aos dezesseis anos de idade sem nenhuma formação moral cívica ou espiritual.<br><br>Para os mais chegados moradores da vizinhança o Polidoro Dagoberto, era simplesmente conhecido pelo apelido de Boca. Era ele sem dúvida, um personagem místico e exótico. Um indivíduo de devoção contemplativa, digna de um místico, porque tinha uma tendência para acreditar nas coisas sobrenaturais. Era também, um sujeito exótico, porque era extravagante e desajeitado.<br><br>Meio fanho e gago, um tanto nervoso, tinha dificuldades na pronuncia das palavras corretas, sempre "comendo" os "rs" como exemplo em vez de dizer Brasília, pronunciava "Basília". Exclamava também, um "Há bom pô quê"… Em quase todos os inícios das frases. Desde criança, quando a mãe morreu, o Boca ficou largado pelas ruas do bairro. O pai, diretor de uma escola publica no Vale do Paraíba, no interior do Estado, estava pouco se lixando para a educação do filho. O velho era uma pessoa voltada ao mundanismo. Fã incondicional da Elvira Pagã, da Luz Del Fuego e de outras vedetes da época, não perdia por nada deste mundo de se assentar na primeira fila dos teatros do rebolado no centro da cidade.<br><br>Quando o Boca foi fazer o curso primário, encontrou muita dificuldade. Era a irmã mais nova que o ajudava nas tarefas escolares. Depois disso, ficava largado na rua, aprontando eiras e beiras. A noite não costumava voltar para casa. Dormia ao relento debaixo de alguma marquise de um prédio qualquer, sempre embriagado.<br><br>Ele não tinha nenhuma ambição, nem mesmo o de exercer algum trabalho que lhe garantisse ao menos uma pequena recompensa financeira. A desestrutura familiar, as péssimas companhias, os maus exemplos apreendidos nas ruas, eram uma constante na vida do Boca. <br><br>Não tinha ainda dezessete anos de idade, quando aprendeu jogar sinuca a dinheiro com a malandragem mais velha da Vila Pompéia, onde morava. Estava completamente relegado ao abandono. Órfão de mãe falecida e de pai ainda vivo, o Boca estava se degradando cada vez mais na vida. Desde cedo já aprendera o vício do cigarro.<br><br>Quando estava prestes a completar 18 anos de idade foi convocado para o serviço militar. A principio seria lotado no quartel do Parque Dom Pedro II no agrupamento do 2º batalhão do G. Can. Au. Aé 45. Naquela manhã fria de agosto de 1943 o Boca subiu no bonde no Largo da Pompéia. Ficou firme no estribo olhando disfarçadamente para a paisagem da rua, enquanto o cobrador atordoado entrelaçava as pernas com os demais passageiros no estribo do bonde, num malabarismo perigoso. O homem ainda atordoado, não tinha como saber quem já tinha pagado ou não a passagem. Era o chamado bonde do cara dura.<br><br>Naquela manhã, o Boca iria se apresentar para triagem no quartel do exército p ara fazer o exame médico. Depois disso, seria transferido para o RI de Quitaúna. O Boca rapidamente se ambientou e se conscientizou de suas obrigações militares. Para ele, aquilo era uma verdadeira escola de civismo. Estava pouco a pouco aprendendo a rígida disciplina militar. Saíra definitivamente das ruas e estava começando a se desenvolver socialmente.<br><br>Afinal das contas, ele não tinha nada a perder. Ao contrário, receberia o minguado, porém, sempre bem vindo soldo mensal do serviço militar. Agora almoçava diariamente no quartel, embora a comida da caserna não fosse lá aquelas coisas, era melhor do que nada. Feijão preto, que nadava numa espessa camada de banha de porco, arroz, uma salada de alface com duas rodelas finas de tomate e para completar o cardápio uma mirrada fatia de goiabada cascão. O Boca estava feliz. Quando em dois de Julho de 1944 o Brasil entrou na segunda guerra mundial, ele foi convocado na divisão de infantaria na qual pertencia. Partiu rumo à Itália, com destino a Nápoles. Em Setembro de 1944 o Boca foi deslocado para o Vale do Rio Sorchio ao norte da região da província de Lucca.<br><br>Durante o rigoroso inverno entre 1944 e 1945 ele enfrentou temperaturas inferiores a 10ºC, onde havia muita neve, muita umidade e muitos ataques exploratórios do inimigo. Durante todo o período que lá esteve, conseguiu se safar das tarefas atribuídas ao seu regimento e no dia 6 de Julho de 1945 retornava a pátria são e salvo. O Boca tinha trazido consigo na bagagem, um álbum de recordações com varias fotografias em preto e branco, mostrando a sua pequena tenda no meio da neve. Seus utensílios de uso pessoal, bem como exibia com galhardia, uma pistola Luger P08 automática, de calibre 7.65mm. Com carregador para oito cartuchos de fabricação alemã, arma muito elegante e de fácil manejo, que foi arrebatada de um soldado alemão durante uma batalha nos campos da Itália.<br><br>Após certo período pós guerra de permanência em São Paulo, o Boca foi considerado um neurótico. Tinha alguns distúrbios de comportamento e um excessivo nervosismo. Havia nele certo desequilíbrio emocional e um transtorno na personalidade. Foi quando um parente próximo, percebendo aquela intranqüilidade, convidou-o para um passeio pela cidade e mostrar-lhes as modificações decorrentes do tempo em que estivera fora, servindo a pátria.<br><br>Acabou levando-o para Franco da Rocha no Hospital Psiquiátrico. Estaria o Boca alienado? Lá foi feita uma triagem e ele recebeu uma camiseta branca listrada de identificação com um logotipo nas costas, escrito em letras maiúsculas "JUQUERI". Ficou pouco tempo lá. Em uma oportunidade fugiu sem ser percebido. Ao entrar no ônibus com aquela camiseta branca listrada, o motorista assustado, perguntou:<br>- “O senhor recebeu alta?”<br>- “Sim” – respondeu o Boca. O homem parecia incrédulo.<br>- “Tenha calma… Onde o senhor mora?” – disse o motorista<br>- “Em Vila Pompéia” – respondeu o Boca um tanto nervoso.<br>- “Fique calmo, vou transportá-lo até a sua residência”.<br><br>E assim o fez. Quando chegou a casa da irmã, ela não estava acreditando no que via. Ele estava ali, na sua frente, com aquela camiseta branca de listra vertical olhando para ela com ar de inocência. O Boca gaguejava palavras desconexas demonstrando certo desequilíbrio nervoso. Mas logo se recuperou.<br><br>Como ex-combatente, tinha direito assegurado de um emprego publico sem concurso. Foi alocado na COFAB, um serviço do governo federal, como motorista de caminhão no transporte de alimentos para São Paulo, vindos do sul do país, na região da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. Tempos depois, foi transferido para a matriz dos Correios e Telégrafos no centro da cidade. Trabalhava como separador de correspondência. Porém, uma coisa estranha martelava na sua mente. Não havia perdoado aquele parente próximo, que o internara em Franco da Rocha, no Hospital Psiquiátrico do Juquerí. Pensou em vingança. Iria matá-lo. Pegou a pistola Luger P08 automática, carregou-a com apenas três cartuchos e foi ao encontro do sujeito.<br><br>Ao avistá-lo, o tal parente enregelou. Estava efetivamente diante de um individuo perigoso e emocionalmente desequilibrado. O perigo era eminente a vista daquela pistola alemã que brilhava na mão do Boca. O homem olhou para ele e para a arma em sua mão e fez desesperadamente uma oferta:<br>-“Boca, quanto você quer por essa magnífica arma?”<br><br>O Boca empertigou-se todo, olhou para o parente próximo, apontou a arma para a cabeça do sujeito, e em um repente disse:<br>-"Ah bom…"Pô" quê… "Ààà… Quan"… Quanto você me dá por ela?” – gaguejou.<br><br>O parente sentiu a fragilidade do Boca e fez a oferta:<br>- “Duzentos cruzeiros, já!"<br><br>O Boca pensou, raciocinou, afinal das contas ele não era nenhum assassino. Acabou aceitando a oferta. Em vez de matá-lo como havia planejado, saiu contando as vinte notas de dez cruzeiros.<br><br><br>E-mail: [email protected]