O bisavô desapropriado

Em São Paulo constantemente nos deparamos com proprietários de imóveis que foram desapropriados, para ampliação de uma avenida, para uma nova linha de metrô. Entre outras razões em geral ditas como para “o bem público”. A desapropriação de gente, ainda que de gente morta, é no mínimo uma situação inusitada, em geral acontece com túmulos abandonados nos principais cemitérios de São Paulo, que são vendidos ou mesmo repassados, virando usucapião. O bisavô acabou sendo sob protesto da família, um dos desapropriados do Cemitério da Consolação.

É uma história comprida com alguns pontos ainda nebulosos. Seu Quinzinho meu pai ficou órfão de pai aos três meses de idade, tendo pouco ou nenhum contato com a família paterna. A única referência que tinha é que seu avô estaria enterrado no cemitério da Consolação, havia inclusive algumas notícias um tanto quanto desencontradas que era um Barão, um potentado ao final do governo imperial e que teria sido um dos donos da chácara do chá no Anhangabaú.

Quando se falou em desapropriar, acho que nos anos 60/70, túmulos abandonados dos principais cemitérios, seu Quinzinho, como bom pesquisador vai tentar localizar o túmulo do avô, que tinha o mesmo nome que ele, Joaquim. O que foi relativamente fácil junto à administração do cemitério. Verificou que era um "bom túmulo", com certa pompa já deteriorada, mas com boa conservação e que ao longo do século XX, estavam sendo enterradas pessoas com sobrenome diferente do titular (o barão).

Considerando que se o túmulo estava bem cuidado, seu Quinzinho, não entrou no mérito de quem o estava utilizando, já que sua conservação e manutenção estavam a contento. Passados alguns anos, década de 90, verifica-se que o túmulo está sendo abandonado e segundo o Zezito meu irmão que assumiu a função de verificação do túmulo após a morte do meu pai no início de 1990, era o pior túmulo do cemitério da Consolação. Já quase ruindo, embora situado num local nobre, logo atrás da capela. Soube-se ainda que para fazer qualquer intervenção ainda que uma reforma ter-se-ia que provar parentesco com o dono oficial do túmulo.

Aí as coisas começam a se complicar, o bisavô casou três vezes. Do primeiro casamento não teve filhos, do segundo, tudo leva a crer que foi uma união consensual com uma escrava liberta, tem um filho o meu avô Tibério. Um mulato garboso com nível superior, professor, historiador e poeta que passou pelo fenômeno do “embranquecimento”, há inda um terceiro casamento do qual não se tem maiores informações. Acontece que o túmulo foi comprado em nome da viúva do terceiro casamento no dia da morte do barão.

Preocupado com a possível desapropriação do túmulo, lá vai o Zezito junto à administração do cemitério localizar o dono. Consegue o telefone do proprietário oficial, entra em contato, mas é muito mal atendido. A pessoa acha que ele quer se apropriar do túmulo da família, que na ocasião estava valendo uma nota. Não adiantou ele afirmar que estava pensando somente na conservação e manutenção do túmulo e que nossa família não queria ver o bisavô desapropriado.

Como o dono foi irredutível, só nos restou ter cópias de todos os documentos referentes ao túmulo do bisavô, que continuou ruindo. Início do século XXI desapropriado ou não o túmulo desaparece, tudo leva a crer que foi muito bem vendido pelos herdeiros. Foi substituído por um túmulo moderno com nome de outra família. Onde foram parar os desapropriados não se sabe, deviam ser uns 10. Provavelmente foram parar numa vala comum, apesar do barão ter sido um dos homens mais ricos do Império.

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