A vergonha de ser criança

Ainda criança, morávamos em Pongaí, interior de São Paulo, meu irmão estudando na Escola Municipal. Lembro-me que minha mãe fazia o sanduíche de pão com mortadela e no intervalo eu tinha de levá-lo para meu irmão, eu passava a maior vergonha, pois o mesmo era embrulhado em um pedaço de jornal. Papel ou lancheira era só para os mais ricos.

Mudamos para São Paulo, fui matriculado no Grupo Escolar Mário de Andrade, sendo obrigatório o uso de uniforme, mas como usar de início? Recém chegados, meu pai sem emprego, morando em casa de parentes, precisava de alguns dias para comprar e poder ajeitar as coisas. Na escola todas as crianças uniformizadas, eu era o “diferente”, cabeça baixa, rosto avermelhado, era o alvo de olhares das criançadas e no intervalo, a tão esperada sopa, canjica.

Uma fila para as crianças que pertenciam à caixa, que não pagavam, lá estava eu. E a outra para os que podiam contribuir com um ou dois cruzeiros não me lembro, eu gostaria muito de estar na outra fila, mas como? metido a riquinho? Caipirão de Pongaí, assim me chamavam. Alpargatas de rodas nos pés, calção até os joelhos e a volta para casa com lágrimas nos olhos.

Em certas ocasiões era liberado o uso do uniforme, lavagem e etc., lá fui eu com a camiseta do Corinthians e uma chuteira, gozação pra cima. Até quando criança, corintiano passa vergonha. Cresci, tornei-me homem, casado e pai de um filho, o qual procurei ensinar o caminho da sabedoria e humildade.

Se ele passou pelo que eu passei não saberei, acho que todos nós passamos por isso, mas apesar de tudo, como é bom ser criança, elas passam e sentem vergonha por serem inocentes, os adultos por serem ímpios, nunca tiveram e nunca terão vergonha na cara.

Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que chequei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Coríntios, 13; 11,…

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