De novo vale ressaltar que aqui vai a minha visão das coisas do mundo. Especialmente em matéria de bar, essa instituição nacional, cada um de nós tem o seu favorito, marcante em nossas vidas, onde fizemos e cultivamos grandes amigos, discutimos muito futebol, afogamos nossas mágoas e, principalmente, consumimos quantidades inacreditáveis de cervejas, caipirinhas, fermentados e destilados de toda espécie. E os seus petiscos, cada um em sua especialidade. Nos anos 60, bar de japonês, fora da Liberdade, era raro em São Paulo. A palavra “sushiman” era tão desconhecida quanto o infame verbo deletar. Ninguém deletava nada. A gente apagava e seguia em frente.
No Estudantil não era um, mas cinco irmãos japoneses. E ainda tinha a irmã, que da cozinha mandava umas coxinhas, quibes e moelas, que eu nunca mais encontrei, pelo menos tão deliciosos e honestos. Mais estranho ainda é que eram mestres em fazer caipirinha, aliás, a única coisa que tinham em comum. Desde que o bar fechou no final dos anos 70, nunca mais tomei uma caipirinha de bar. Não vou correr o risco de encontrar outro seu Afonso na minha vida. O velho Afonso, concessionário do bar do clube, ficou famoso como autor das piores caipirinhas já servidas em toda a Via Láctea. Tão ruins que só eram suportáveis quando se adicionava uma groselha, mas aí já não era caipirinha, era xarope mesmo. Depois da terceira caipirinha do seu Afonso, o sujeito entrava em transe. Houve até uma tentativa de criminalizar o consumo. Não prosperou, mas devia.
Voltando ao Estudantil, este não era apenas um bar. Era também uma delegacia: tinha delegado que passava lá todo dia e dava plantão com mesa cativa e atendimento personalizado. E o que não faltava naquele bar eram sujeitos que precisassem de um delegado amigo. Advogados e comendadores, então… Eram às dúzias. Médicos, professores, arquitetos, engenheiros, colunistas sociais, mas, sobretudo, vagabundos. Na porta do Estudantil, nas duas décadas em que ele funcionou, nunca ninguém ficou sozinho. O bar abria às 8h da manhã e fechava às 11h da noite, ainda que lá estivesse o Presidente da República. Quando os japoneses cismavam de fechar, você tinha que beber o último gole, pagar a conta e ir embora, se não quisesse ser molhado pela mangueira que já estava lavando o chão e expulsando todo mundo. Fiado não havia; pendurar uma conta por um ou dois dias só para clientes de mais de dez anos. E ninguém arriscaria a deixar de pagar. Cada japonês era mais bravo que o outro, mas tudo boa gente.
A calçada em frente era território proibido para moças de boa família e mulheres lá dentro eram raras. Não que houvesse baixaria ou brigas, era mais pela fama dos frequentadores. Brigar lá dentro significava o risco de ser botado para fora à força pelos donos e ficar um tempão sem poder aparecer, o que era uma pena muito pesada para qualquer um. Ali nasceu a Mesa 50, organizamos o Torneio de Férias, saímos às 11h para muitas baladas, fundamos o Pula Muro, discutimos sobre tudo, aprendemos muito e bebemos mais ainda. Depois, para azar de São Miguel, foi vendido e virou mais um self-service igual a tantos. O Estudantil, um bar diferente, não merecia um fim desses.
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