Em todos os cantos do mundo existe um bar. Faz parte da nossa vida como a igreja, o banco e o correio. Do inglês bar, este se confunde com botequim, boteco. Todos com a mesma essência, a mesma aura democrática e suas várias facetas.
Falam do boêmio como um desqualificado, um ser que não sabe resolver sóbrio os seus mais simples problemas. É como se sua vida se resumisse a encher de copos sua pobre alma estraçalhada. Para que fuga mais interessante? Como permanecer equilibrado nesse mundo louco, engarrafado, estressante, cheio de senhas para tudo?
É preciso antes amar o bar e aí, ele será definitivamente seu. Acompanhar sua rotina, conhecer o dono, chamar o garçom pelo nome, tratá-lo como alguém importante da família. Quem não conhece o Veloso, a Mercearia São Pedro, o Léo, o Pirajá e o tradicionalíssimo Bar Brahma?Quem freqüenta um botequim encontra um sentido para a sua existência, conhece amigos e esquece que o mundo que passa lá fora é outro.
Agradeço por ter bebido nos botecos de Sampa, nas minhas raras visitas. Na realidade, nós freqüentadores de bares, somos sensíveis ao extremo e quando bebemos viramos açúcar na boca de criança. Não somos meros beberrões que se encharcam de álcool vagabundo. Beber é um segredo, algo divino, só nosso espírito pode vir a ser cúmplice. Depois de alguns tragos e brindes palavras duras se tornam dóceis, pessoas feias viram estrelas de Hollywood, esquecemos aquele linguajar do dia a dia, fazemos confidências, começamos a enxergar a nossa vida como uma rede de sentimentos, momentos de abandono. Viramos Don Juan por uma noite apenas… Mas não é qualquer bar que vira um bar digno de ser visitado, de ser admirado. A cerveja empoada, o famoso chopp com colarinho, é muito importante, assim como; o bolinho de bacalhau, o pastel e a poção de feijoada. Depois vem o lado discreto do dono ou do garçom, a não possibilidade de deixar uma continha pendurada, copos limpos e um som que consiga agradar aos gregos, troianos, espartanos e mulçumanos.
Atualmente uma praga de música sertaneja nos deixa surdos e burros. Precisa também ser abençoado por Deus, sei lá, qualquer coisa irreal. Os frequentadores precisam captar a mensagem do bar, sua posição geográfica(de preferência, numa esquina). Afinal como irei expurgar minhas neuroses em qualquer lugar? Estamos carregados de pecados, fofocas ruins no trabalho, traições… E o bar vira o nosso templo. Somos canibais numa mesa de bar. Alimentamos-nos do outro. Provamos da alegria, da tristeza, da notícia do momento, do amor despedaçado, dos amantes e suas histórias de desencontros… Entra a política partidária, a piada, a raiva, o beijo roubado, um ligeiro e descompromissado roçar de pernas embaixo da mesa e o choro.
O bar com seus clientes é como uma enorme orquestra em que o dono do bar, atrás do balcão, rege harmonicamente toda aquela mistura de gostos e desejos. O bom bebedor entende quando é hora de partir marcando de antemão o horário de voltar. Tudo isso, para homenagear todos os bares de Sampa e seus boêmios. Lugar de amigos, de trocas, de relaxamento, de catarse ou apenas, observar de longe, as pessoas anônimas que passam distraídas.
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