Religiosamente, lá pela hora do almoço, fazendo um alarido estrondoso com seu velho "poeirinha", ônibus amarelo e vermelho da CMTC, o "Sr. Frango Assado", como a garotada carinhosamente o chamava, devido à pele avermelhada de tanto ficar próximo àquele motor escaldante, descia a Av. das Cerejeiras freando em frente à Padaria Pombal (hoje demolida), para que aquela turba de pequenos aprendizes pudessem adentrar no ônibus com destino ao Colégio Manoel da Nóbrega, que ficava dentro da Vila Maria Zélia, próximo da Rua Catumbi no Brás.
Este senhor era o único motorista que parava para os alunos subirem, mesmo que estivessem fora do ponto, quando se atrasavam para a aula. Santo homem aquele! Devia amar muito o que fazia: os pequenos iam empoleirados em cima do motor, só para ficarem perto dele, fazendo uma tremenda algazarra, ou ficavam no fundo do veículo depois da catraca, não permitindo que mais ninguém entrasse por aquela porta.
Mas ele não reclamava de nada. Nem do barulho, nem do calor, nem de ter que parar fora do ponto. Seu sorriso era contagiante, com apenas alguns dentes à mostra, pois havia falhas em sua dentição. Era a simpatia em pessoa.
E lá íamos nós, em direção ao colégio. Saia azul marinho, as meninas e calça azul marinho, os meninos; blusa branca com o emblema da escola no braço esquerdo, gravata azul do mesmo padrão da saia e calça, blusão branco, que era a tortura das mães em tempo de chuva, tênis branco (Conga) impecavelmente limpo.
Tínhamos um segredo: ao nos aproximarmos da porta do colégio, tirávamos da bolsa um vidrinho de alvaiade e passávamos nos tênis imundos de pó, que num piscar de olhos tornavam-se alvos como se fossem novos.
A escola era antiga. Com dois andares e escadas de madeira, dividia-se em dois prédios: de um lado da rua, ficava a escola para meninos, e do outro a escola para meninas. Todavia, quando estudamos lá essa divisão já havia sido banida e em nossa classe misturavam-se garotos e garotas, somente nas aulas de Educação Física é que prevalecia a separação.
O Sr. Antonio Garrido era nosso professor de Português e ainda acumulava o cargo de diretor. Tínhamos ainda o prof. Celso de Geografia (o carrasco), o Prof. Alceste de Francês (o chato), o Prof. Oswaldo de Matemática (que os meninos chamavam de "caldo de galinha Avecreme” pelo modo como ele andava). A Dona Lídia era nossa professora de trabalhos manuais. E outros que não me lembro no momento.
As classes eram antigas, com janelões altos, móveis escuros e tétricos. A coisa que mais me intrigava era um palanque sobre o qual ficava a mesa do professor. Para mim, a altura em que o mestre ficava indicava bem quem dava as ordens por ali.
Lembro-me de uma sala junto às escadarias, usada como laboratório, onde havia uma infinidade de vidros gigantes, com cobras, sapos, lagartos, etc. mergulhados numa solução de formol.
Mas o que mais me chamava a atenção e me dava medo era um vidro esverdeado com mais ou menos uns 30 cm de altura e que continha em seu interior uma mão de uma pessoa adulta, inteira, com os cinco dedos intactos, decepada pelo punho. Era de arrepiar. Havia alunos que ficavam apavorados só de entrar naquela sala, pois alguns engraçadinhos, faziam questão de assustar os medrosos, com um pedaço de madeira bem fininha, como vareta de "pipa", resvalavam na nuca do colega e com voz cavernosa, diziam ao pé do ouvido:
-Eu sou o dono da mãozinhaaaaaaaaa!
O coitado ficava tão apavorado que não tinha coragem para virar o rosto e ver quem era o autor da malfadada brincadeira.
O ambiente do colégio lembrava um castelo assombrado e alguns de nós tínhamos receio de ir sozinhos ao banheiro. Eu, entretanto, achava aquilo fantástico, mesmo que não dormisse de noite pensando naquilo, para mim era um misto de suspense e aventura, ansiedade e medo, a adrenalina corria em minhas veias, misturando as sensações. A curiosidade era mais forte do que o medo. Quantas vezes me peguei abrindo sorrateiramente a porta daquela sala temida, com o coração aos saltos? Conseguia sentir a palpitação no meu pescoço, só para ver se a mãozinha ainda estava lá, no cantinho da prateleira!
O sol já se punha no horizonte quando as aulas terminavam, e a Vila Maria Zélia tornava-se um cenário de um filme de “bang-bang" em nossas fantasiosas cabecinhas. Ao dobrarmos a esquina, lá estava ela, nossa diligência, o nosso salvador à nossa espera, parado no ponto final da linha Parque Novo Mundo. Nosso cowboy do asfalto "Sir Frango Assado", que ao completar a lotação do ônibus com seus passageiros mais importantes, dirigia-se para a Vila Maria, descarregando pelo caminho a sua preciosa carga com um esfuziante aceno e um sonoro:
-Até amanhã, meus bravos guerreiros, durmam em paz!
“Sr. Frango Assado", o senhor foi uma pessoa muito especial para nós.
Deus te abençoe, onde você estiver. Durma em paz o Sr. também!
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