O balcão de Julieta

Igreja de São Geraldo, Largo Padre Péricles. Do alto de nosso apartamento víamos a torre da igreja, e aos domingos o soar de seus sinos nos chamava à missa. Eu não era um devoto religioso, mas o costume familiar pesava no processo.

Depois, era uma bela igreja, não longe de casa. Seu fundo arredondado viria lembrar igrejas italianas, que conheci mais tarde. Poderia tê-la imaginado como uma igreja da Toscana, mas nesta época a Toscana ainda estava, literalmente, muito longe de meu alcance.

Subíamos a Rua Conselheiro Brotero, passando pelo quartel do II Éxercito, entrávamos pela General Olímpio, mais uns passos e atravessávamos o Viaduto Pacaembu. Em seguida, ali estava a elevação do Largo Padre Péricles. A missa em latim era grego para quem, como eu, não tinha prestado atenção às boas aulas do Professor Galvão, em Campinas.

A igreja, sempre cheia, geralmente ficávamos de pé, junto à entrada. Ali encontramos até, uma vez, alguns ex-colegas do "Culto à Ciência". Os campineiros estavam, não sei porque, numa excursão à capital. Que coincidência!

Mas não foi o único encontro interessante, motivado pela missa. Não sei qual horário que frequentávamos, se das dez ou das onze. Voltando para casa, às vezes cruzava com uma linda jovem, loira, de cabelos Chanel sobre o rosto arredondado. Tinha grandes e belos olhos, lembrando muito a atriz americana Shirley Jones. Ela rumava para a missa seguinte.

Por causa dela, até assisti os musicais "Carrossel" e "Oklahoma", estrelados pela atriz, no saudoso Cine Santa Cecília.

Notei que ela também me olhava com interesse, o que despertou-me uma paixão, ainda que platônica e inocente, pois eu era totalmente inexperto nessas historias de amor.

Era, creio, sobrinha de um dentista que morava na Conselheiro Brotero, e sua mãe era víuva, como a minha. De vez em quando, aparecia no balcão de sua casa, uma Julieta Capuleto aquecendo com sua beleza a rua inóspita. Eu era tímido e inibido, nunca chequei a trocar sequer um alô com a menina, que teria seus catorze anos. Aliás,a idade de Julieta!

E senti-me muito infeliz, na comemoração da Copa do Mundo de 58, ao deparar com minha bela desfilando num carro aberto, na parada que seguia o caminhão dos craques pela General Olímpio.

O tempora, o mores! Assim diria o velho Galvão, se pudesse presenciar a cena. Como mudam os tempos e nós rolamos junto, nessas mudanças. Os anos se passaram,tive outros romances e não voltei à Cons.Brotero, para rever o balcão da minha perdida Julieta.

Então, como tive de ir uma vez às proximidades, passei ali curioso de ver se o balcão ainda existia. Mas,que nada. Sua ampla casa fôra transformada num colégio, ou cursinho, paredes de azul berrante.

Ela ficou apenas como uma bela visão para rememorar, um sonho perdido no tempo. Como o Cine Santa Cecília, que, por causa dos filmes de Shirley Jones, permaneceu para sempre enredado na minha história.

Muitos anos mais tarde, viria a conhecer a mulher da minha vida, numa outra Copa do Mundo. Mas isto já é outra história.