Ocorreu, há dias, um passeio pelo cemiterio da Consolação, liderado por minha amiga Silvana. Deve ter sido muito bonito. Não fui, meus sábados geralmente são atribulados. Mas, no fundo, cemiterios não me agradam muito. Não é medo, talvez sejam lembranças de infância, que até hoje mexem com nossa vida. Mas, nem sempre acontece assim.
Trabalhei numa agência de propaganda na Av. Pereira de Magalhães, no Pacaembu, há alguns anos. Era uma azáfama, e estava estressado, mas, para meu relax, passava a hora do almoço com os pés em cima da mesa, confortavelmente refastelado na minha poltrona.
Na minha frente, uma ampla vidraça.
A vista? O repousante verde e o silêncio pesado do Cemiterio do Araçá, para qual davam os fundos da agência. Era um bálsamo para uma pessoa tão atribulada como eu, naquela fase.
Mas o cemiterio de minhas maiores lembranças não fica aqui, mas em Campinas. Justamente neste mês, em que se comemora a Revolução Constitucionalista, realizou-se o passeio à Consolação.
Junte-se uma coisa á outra, e também fiz, em pensamento, minha visita ao Cemiterio das Saudades, que tanto marcou minha infância campineira.
Teria uns dois anos quando fomos morar na Av. das Saudades, e lá ficamos por uns quatro anos.
Como o nome diz, é a principal via de acesso ao cemitério local. Naquele tempo, grande parte dos enterros eram feitos a pé, com as pessoas chorando, ou acompanhando o féretro em lamentável silêncio. Os passos, soando pesados na avenida.
Podem imaginar a impressão que isto causava em mim, tendo, perplexo, o meu primeiro contato com a única certeza desta vida: de que vamos todos morrer.
Não recomendo esta experiência a ninguém, embora esteja longe de ser um caso único.
Milhões de crianças passaram, passam e passarão por isto, embora em cada um a reação seja diferente.
Marcou-me profundamente, e em consequencia disto, eu esqueci completamente o fato!Simplesmente,se apagou.
Por muitos anos as lembranças dos enterros desapareceram totalmente da memoria. Só voltariam quase trinta anos depois, fazendo terapia de apoio. E aí vi, com espanto, como fatos tão poderosos, mas desagradaveis como êste, podem ser suprimidos para evitar que nos machuquem tanto.
Por outro lado, é obvio que, como já disse, quase todos cemiterios tem seu lado bonito e agradável.
Assim, lembro-me até hoje, apesar de não revê-la há tantos anos, da imponente entrada do Cemiterio da Saudades, bem junto ao pórtico, uma enorme estátua em bronze: um soldado constitucionalista, totalmente uniformizado, com rifle, baioneta e tudo mais.
A seu lado, uma placa, com os nomes dos campineiros tombados na luta. E um belo poema de Guilherme de Almeida, do qual me lembrava parcialmente até hoje, quando meu irmão Ivan enviou a versão completa:
"Não é túmulo, é berço; é sementeira
de um ideal, caminho do futuro, pista,
rastro de herois na terra campineira.
Sôbre eles, cor a cor, listra por listra,
eternizou seu vôo esta bandeira,
petrificou-se o pavilhão paulista.
Bandeirantes, por vós, nesta jazida,
velam as pedras, que esta morte é vida!"
Bonito, não? Um dia dêsses, talvez um sábado mais calmo, eu volte lá para rever êste marco de minha infância. E o túmulo de meus pais, que lá descansam.