O que se pode esperar de um jovem de 14 anos? Esta era minha idade quando vivi uma experiência impactante. Já ouvira falar de seu nome, mesmo alguém de minhas relações familiares o tinha citado com admiração, Mas o ouvir? Ali tão perto de casa? Era um convite ao desconhecido!
Morávamos na Rua Apinages no Sumarezinho e a TV Tupi, antigo canal 4, ficava a poucos quarteirões de casa. Várias vezes, ao passar em frente, vislumbrávamos os artistas que se reuniam na padaria fronteira à TV. Sempre os olhava com admiração e espanto, mas o que se veria na TV Tupi, naquela noite, seria algo absolutamente novo. Um personagem em nada compatível com o glamour e as belezas dos artistas de televisão.
O programa Pinga Fogo era famoso pelos debates e polêmicas que apresentava com grandes autoridades dos vários setores da vida brasileira. Arte, esporte, política, comportamento. Sempre buscando o debate. Jamais se poderia esperar que um representante de uma doutrina religiosa viesse a público como aquele viria. Dizia-se que era o maior médium do Brasil, mas médium, o que é um médium? Ele explicaria… Dizia-se que falava com os mortos e que escrevia por intermédio deles. Já tinha mais de cem livros "psicografados", sabe-se lá o que queira dizer isto! Estes eram os comentários que se faziam e as expectativas que se criavam.
Sentei-me em frente a TV com certa timidez ante meus pais e o programa começou às nove da noite. A imagem que a TV preta e branca nos mostrava era de uma platéia compacta que esperava com certo ar de desconfiança e nítida tensão. No palco, os perguntadores convidados, jornalistas, repórteres, filósofos católicos, formavam em bancada curva com a mesa do entrevistado um pouco na lateral. Em outra frente, o apresentador oficial, jornalista tarimbado e com domínio das ações.
Após a praxe das apresentações, entra o convidado. Paletó largo demais para o corpo magro e miúdo. Tecido ordinário, mostrando a simplicidade daquele sujeito. Olhar baixo, óculos de aros grossos, desproporcional ao rosto que era anguloso e parecia querer esconder-se de todos. Sobre a cabeça, uma incompreensível peruca lisa e de cabelos negros que parecia ter sido colocada somente para diminuir seu usuário. O conjunto não apresentava nada de bonito ou atraente, antes era até cômico se não fosse quase ridículo… Sentou à mesa com passos lentos e com gestos curtos. Quando lhe foi dada a palavra, o fez com voz sumida que parecia vir filtrada por algodão.
Na primeira elocução, afirmou que o convite jamais poderia ter sido feito a sua pessoa, que considerava insignificante, mas antes era um convite à doutrina que ele representava e que faria o possível para honrá-la com sua desvalida pessoa. Pediu licença e citou com absoluta precisão textual palavras do apóstolo Paulo, onde rogava não sermos alternadores com as leis e que déssemos ali, prova do respeito para com todos os homens. Sentou-se e iniciou-se então a mais impressionante apresentação pessoal de um entrevistado na televisão brasileira.
O profundo senso de dever e ordem, a compreensão caridosa das dores e das escolhas de cada um em suas vidas. A identificação total com os ideais cristãos, colocando Jesus em todos os setores da vida comum, não como um deus inatingível, mas como um amigo superior que nos ampara e consola.
Foi dominando a todos com sua humildade e simplicidade, com sua presença calma e serena, com sua absoluta ausência de afetação e importância. Desfilava conhecimento assustador sobre os variados assuntos que lhe dirigiam, sempre com naturalidade e leveza. Termina a apresentação psicografando Castro Alves, o que a todos impactou.
Não sei quem terá assistido ao programa naquele longínquo 1971/72. Mas sei que a voz daquele homem e sua mensagem consoladora me impressionam até hoje! Que noite vivida no Sumarezinho! Com certeza São Paulo recebeu naquela noite uma visita inesquecível.
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