Nas décadas de 50 e 60 a grande diversão para nós, numa época em que não havia outras distrações, era o futebol no fim de semana. Não o futebol das grandes equipes profissionais, mas o futebol amador. Cada bairro tinha, pelo menos, um grande time de várzea. Equipes como o Parque da Mooca, Huracan do Glicério, Vera Cruz, dentre outras tantas, tinham jogadores que nada ficavam devendo às equipes profissionais. Nós, que morávamos no Brás, éramos torcedores do APEA. Sua sede ficava na Rua Caetano Pinto, quase na esquina com a Rua Campos Sales.
Todos os finais de semana havia jogo do APEA. E como todo bom morador do Brás, e torcedor do APEA, acompanhávamos o time aonde ele fosse. Várias vezes fomos de caminhão assistir aos jogos e torcer pelo APEA. Para nós, que ainda éramos crianças, tudo isso era um grande divertimento.
O time e a torcida eram formados, em sua grande maioria, por italianos, espanhois e seus descendentes. Até em função disso, não era raro o jogo que terminava em pancadaria.
Qualquer coisa era motivo para briga. Uma falta não marcada, uma entrada mais "pesada", um drible melhor aplicado e… pronto! Briga!! Acho que naqueles tempos até a violência era um pouco mais "romântica". As brigas se resumiam a troca de socos, pontapés. Nunca vi, em todos os jogos que acompanhei do APEA, e nessas brigas, alguém portando arma ou faca. O máximo que acontecia era um ou outro corte e, de vez em quando, um olho roxo.
Pois bem, nessas andanças acompanhando o APEA, certa vez fomos assistir a um jogo no Estádio do Nacional A.C., na Rua Comendador Sousa. Não me lembro qual era o adversário. Estava eu junto com meu pai, meus primos e meu Tio André, morador da Rua Caetano Pinto e fanático pelo APEA.
A "má vontade" em relação aos torcedores do outro time já começou na entrada do estádio. Fomos procurar um lugar mais sossegado, para poder acompanhar o jogo sem nenhum problema.
Dali a pouco se aproxima um senhor, se identifica como torcedor do time adversário e se posta ao nosso lado. Meu Tio André já se aborreceu com isso.
Se não bastasse ficar ao nosso lado, ele insistiu em puxar conversa, justo com meu Tio:
– Vocês são torcedores do APEA?
– Hum, hum, foi a resposta.
– O APEA eu conheço mais ou menos. É do bairro do Brás, né?
– Hum, hum, foi, de novo, a resposta.
– E o que significa APEA?
– Associação Paulista de Esportes Atléticos, foi a resposta, num tom mais ríspido, do meu Tio.
– Puxa vida, que bacana… Associação Paulista de Esportes Atléticos, hein! Nós também disputamos outras competições. Temos departamento de atletismo e participamos do Campeonato de Ciclismo. Me diga, qual os outros esportes atléticos que vocês praticam?
Aí a paciência se esgotou. E a resposta do meu Tio André foi:
– Truco, dominó, tômbola e, de vez em quando, sinuca. De vez em quando, porque os tacos servem, também, para quebrar na cabeça de curiosos…
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