Duarte desde muito jovem sempre se mostrou esforçado, além de sua capacidade eminente, tinha gosto pelos estudos. O legítimo nerd como comentavam as pessoas que o conheciam. Passou por todos os estágios escolares com louvor, formou-se em Administração em uma conceituada universidade pública e nunca mais parou de evoluir, como profissional.
Nunca pensou em se casar, não tivera tempo sequer para namorar, apenas ficava o tempo necessário para satisfazer os seus instintos. Amigos, na verdade nunca os teve, apenas os chamados puxa-sacos que não são amigos, são os interesseiros; ainda mais agora que mal chegara aos trinta e cinco e já ocupava importante cargo em uma grande empresa multinacional, diretor de novos negócios, responsável pelas contas dos mais importantes clientes do planeta.
Residia com a mãe em um luxuoso condomínio nos arredores de São Paulo. Como fazia todos os dias ainda cedo, se dirigia para o trabalho e era sempre o primeiro a chegar e o último a ir embora. Reuniões em cima de reuniões, viagens e mais viagens, cursos de especialização, MBA, Pós nisso e naquilo, curso da língua alemã e até de mandarim, cursos e mais cursos. Há anos não sabia o que era a palavra férias, mas conjugava o verbo trabalhar em todos os idiomas e em todas as formas usuais e possíveis.
Academia de ginástica, nem pensar, entendia ser tempo perdido. Era coisa de quem não tinha o que fazer. Vida social somente eventos de cunho profissional ou de negócios desde que agregassem algo substancioso ao seu cabedal, jamais sacrificaria momentos de sua existência para ficar com conversinhas inconvenientes, improdutivas. Considerava ser imprescindível no trabalho. Tentara o tênis, o hipismo, a natação, mas tudo o aborrecia e não dava sequencia à nenhuma atividade, sequer ao lazer. O mundo em que vivia então abrangente para ele, na verdade era apenas uma condensação de um mundo maior que a sua ambição. Quando havia um feriado, nem pensar, ficava irado, pois era perda de tempo. Invariavelmente levava trabalho para casa.
Nos últimos dias vinha percebendo que sua memória falhava, não conseguia lembrar-se de imediato dos compromissos, de simples senhas e de números de telefones. Tornara-se ainda mais ríspido às reuniões. Fatigava-se constantemente, sentia apertos no peito e fortes dores de cabeça, mas como era jovem, pensava que um final de semana na Riviera resolveria. Mas como sempre adiava para outro final de semana e mais outro e mais outro. Não se abria com ninguém, era autossuficiente.
Em uma manhã quando seguia para importante reunião de negócios bruscamente estaciona o automóvel em plena Avenida Vinte e Três de Maio, atrapalhando ainda mais o tráfego já tão caótico. Os agentes de trânsito agem com rapidez e deparam com ele dentro do carro com aparência de alguém fatigado ao extremo. É então retirado do carro e como não apresentava gravidade submeteu-se a um breve interrogatório e logo foi dispensado, pois deduziram tratar-se de uma pequena indisposição do motorista e que o mesmo já estava em condições de prosseguir.
Sem saber para onde ir limitou-se em seguir o fluxo até parar em um posto de combustível, porém já não conseguia se lembrar de absolutamente nada, nem do próprio nome, quem era e o que fazia.
Saiu do carro sem os seus pertences, deixando a chave no contato. A pé sem a mínima noção de onde estava e para onde ia, seguiu por uma avenida, a esmo caminhando para lugar algum como que conduzido por um controle remoto cujo controle não estava em suas mãos.
Poucos sentiram a sua falta. O carro e os pertences foram encontrados intactos. Um boletim de ocorrência foi registrado. Suspeitas sobre possível sequestro foram levantadas, mas nunca houve pedidos de resgate. Desde então se tem discutido onde andaria o Duarte. No início a mídia divulgava algumas notas do seu desaparecimento e fotos, porém decorrido algum tempo outros desaparecidos ocupam aquele espaço do jornal.
Sua mãe estressada pela incerteza embarcou com o novo namorado em um cruzeiro para a Europa sem ideia do retorno. Na empresa outro profissional hoje ocupa o seu lugar.