O ano do quarto centenário

Hoje, aniversário de São Paulo, dia 25 de janeiro, ano 2013, aqui diante do computador, após ler os relatos parabenizando nossa cidade, nem sei bem por que, me veio à memória o ano de 1954, e as festividades relativas ao quarto centenário.

Nessa época, era eu ginasiana, Ginásio Estadual Antonio Firmino de Proença, quartanista e formanda, "formandas do quarto centenário", fomos assim denominadas. O ginásio era referência e, durante todo o ano, se engalanou para comemorar o fato.

São Paulo, a cidade, provinciana talvez, também se engalanou para a festa: haveria a inauguração do Parque do Ibirapuera, uma obra de grande porte, desfiles comemorativos, músicas escolhidas através de concursos e solenidades várias.

Um grupo de alunas do Firmino, eu inclusive, iria se apresentar no estádio do Pacaembu, em sete de setembro, para uma demonstração de ginástica, e muitos foram os dias treinando, primeiro na escola e depois no Pacaembu. Depois dos treinos havia um caminhão de leite que era distribuído para as alunas e os alunos. No final dos treinos gritava-se "Escola de boa forma!", e nós respondíamos: " Brasil!".

A apresentação foi linda. As escolas, nessa época, tinham trajes de gala, impecáveis, brancos, luvas, e seguiam com fanfarras e balizas à frente. O uniforme de ginástica era branco e a orquestra de G. Henry tocou durante a apresentação de ginástica.

Quando as escolas saiam pelo bairro, antes dos desfiles oficiais, para treinar, as pessoas ficavam na frente das casas e aplaudiam. A cidade tinha orgulho de seus estudantes, era um pensar europeu uma vez que grande parte desta era formada por imigrantes que valorizavam a cultura e o saber. Nós, os estudantes, éramos respeitados em nossos trajetos, ninguém nos incomodava, sempre uniformizados, educados, trazendo no peito o nome da escola e zelando por ele.

Nossa formatura, nesse quarto centenário, enquanto "formandos do quarto centenário", foi no salão de festas do Caetano Campos, na Praça da República, um outro colégio referência daqueles tempos. Havia escolas estaduais primorosas, por exemplo o Roosevelt, o Firmino, o Alexandre, o Caetano e Escolas Normais muito boas e respeitáveis.

Nosso ensino era levado a sério e os professores eram catedráticos, como os professores Otacílio Dias, de Geografia, Eduardo Vilhena de História, Aroldo de Azevedo e muitos que nos brindavam com aulas magníficas, verdadeiros banhos de cultura e de saber como ministrar uma aula. Isto nos motivava e incentivava.

O baile, todas as meninas de branco, os meninos de smoking, foi no ginásio do Pacaembu, a orquestra do Silvio Mazzuca, pais orgulhosos, padrinhos, um acontecimento que enchia os pais de orgulho e que, infelizmente hoje, é muitas vezes ignorado e pouco festejado.

Significávamos, naquele contexto, um futuro, um sonho, uma vitória para aqueles pais imigrantes, muitos analfabetos, outro tanto trabalhadores braçais, que erguiam esta cidade com o suor de seus rostos e mães que se desdobravam em tarefas pesadas para que tivessem o que alardeavam ser o sonho de um filho formado, doutor, um bacharel.

Houve a chuva de prata, os malabaristas, as festividades, as placas comemorativas de uma São Paulo, cujo slogan, "cidade que mais cresce no mundo", carregava o sonho de se transformar em uma gigante de aço e de concreto onde nada nos era dado, tudo era obra de muito trabalho, suor, estudos e garra. Guerreiros, isto é o que fomos, somos e seremos neste planalto, nestas terras de Piratininga, desbravadores, trabalhadores.

Hoje, depois de quase 60 anos, somos o que construímos, nós os paulistanos oriundos e adotados, tudo na base do trabalho, do suor, muita garra e dos sonhos. Metrópole imensa, dinâmica, top em vários setores, e é com orgulho que comemoramos mais um aniversário.

Nos tornamos melhores, piores? E alguém sabe dizer?

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