O “angu” da madrugada

Aparentando idade mais avançada que a real, a minha avó mexia a panela um tanto gasta pelo tempo e pelas muitas passagens da vida com a modesta colher de pau. Em pé, com a sua saia escura, invariavelmente distinta, como era a sua alma, ela misturava a comida que faria companhia para o frango ensopado naquela manhã. Havia mansidão nos seus gestos. Uma mistura compassada, sem sobressaltos.

"Quando o angu começar a bufar, é hora de tampar a panela", ela disse uma vez. Deixando a vida fazer sua caminhada, ela foi ajudando a criar os três filhos da minha mãe, tendo antes trabalhado metade da vida nas suas Minas Gerais. Outra metade em uma São Paulo de após-guerra, nos tempos de pouca comida, apesar de morar perto do Mercadão. Tempos de uma cidade que tentava se colorir com as promessas de um tempo de paz e de industrialização.

Foi ela que me ensinou a amar o próximo, a respeitar os mais pobres, a ter horror às injustiças. Valorizar o trabalho, os professores, o estudo, cuidar dos cadernos com muito zelo e higiene, a não ter preguiça. Ensinou a respeitar os mais velhos, ajudar a mãe, não brigar, não gritar. Criticou o mundo, mas contribuiu com uma fala pausada e doces atitudes para outras possibilidades: a do respeito, da integridade. Em uma palavra: para uma sociedade com vergonha na cara. Naquela manhã, ela mexia o angu na panela, quem sabe vinda também das suas Minas Gerais.

Tempos depois, eu aprendi, com sofreguidão, um outro significado para essa palavra, que nada tinha a ver com a tradicional polenta dos italianos. Eram tempos de dificuldades diferentes daquelas enfrentadas pela minha avó. Mas também os momentos delicados exibiam as suas interrogações, os seus medos. E aquela criatura única, expressão do Divino, pequena, muito clarinha, desde cedo com sorriso bom, me acordava várias vezes pelas madrugadas, pouco se importando com um cansaço indizível e monstruoso que eu carregava pelas tantas aulas ministradas em mais uma semana. Rindo alto, batendo os braços e as perninhas, ele gritava:

– Angu… angu… angu.

E ria feliz ao notar a minha rápida presença. Muitas vezes eu ouvi o "angu" da madrugada e o meu esforço para me levantar e atender o filho recém-chegado, era tão monumental que me fez compreender a fala do grande escritor rio-grandense Mário Quintana: "a mãe só é menor que Deus".

Hora de trocar as fraldas quando o meu corpo doía pelo dia extenuante de trabalho. Alimentar a criança colada ao peito horas a fio… Quem sabe o menino ficava a imaginar como construir a própria história ou mesmo rir daquela que nós havíamos construído e que não era tão genial assim. Quem sabe, pensava em como elaborar melhor o espaço da vida, com mais lirismo, pintando as telas da existência com cores mais vivazes e graciosas. Poderia até pensar, quando grudado ao peito, em como abrir as cortinas do teatro e fazer a plateia refletir com suas tiradas, sua filosofia.

De madrugada, o meu menino gritava "angu". E quando clareava eu deveria me apresentar inteira ao colégio dos jesuítas, que jamais teria simpatia ou tolerância com uma professora pela metade, caminhando mais lentamente, com olhos fundos e com humor duvidoso. O "angu" da madrugada me fez uma mulher forte. Me fez compreender que o amor é também sofrido, exige um esforço sobrenatural para vingar. Capaz de dormir muito menos para me inspirar no cuidado com o outro, o outro que era a minha extensão e sempre me ensinando a elaborar as novas redações da existência.

Me fez aprender o valor do respeito e da paciência necessária para manter vivo o meu menino. Me ensinou a persistência na busca do bem nos momentos em que as ameaças de novos tempos batiam duro no coração, nas pernas doloridas, em algum sinal de desespero em função da negação de mim.

Aquele sorriso inocente me fortaleceu, apesar da fadiga desastrosa, corrosiva e me fez compreender como é o caminhar dos sentimentos. E percebi que o único amor verdadeiro é o amor de mãe. E choro às escondidas pelas mães que viram a partida dos filhos. É como se o coração abrisse a porta dos fundos com tamanha violência e decisão fazendo a vida se dissolver para sempre. Sem remédio, sem palavras, nublando. Brilho do olhar se desfazendo qual fumaça ao sabor do vento.

Todas as mães ouviram muitas vezes, entre sorrisos e batidas de braços e pernas, o "angu" da madrugada. E sorriram, choraram, sonharam, pensaram, tiveram ansiedades sem fim… E rezaram. E continuam rezando e sempre haverão de abençoar a maior invenção de Deus, com toda a energia da felicidade e que a elas cabe burilar para que esses filhos e filhas sejam muito melhores e mais felizes que nós.

E para aquelas que viram os seus filhos partir, desejo fé na caminhada e a certeza do reencontro, sem dores ou lágrimas, mas na luz da Divindade Cósmica. E para todas as mães, deixo o sentimento de que a felicidade é uma arte que se tece lenta, diuturnamente, como um bordado delicado do qual não se entende o traçado, mas exibe muitas cores, algumas cintilantes misturadas às foscas.

Que não se tenha medo do amor – desse amor. Esse, sim, é eterno, como é eterno o amor de Deus, que é a grande mãe do Universo, que passa merthiolate nas feridas das nossas almas, acalenta, sorri com confiança, faz o choro passar, pega no colo e nos faz olhar para a janela da vida, deixa o equilíbrio das emoções reaparecer e deixa resplandecer o perfume das angélicas na beira dos rios da existência…