Meu professor de Geografia

O nome dele era Paulo Arantes, eu fazia o ginásio no Liceu Vera Cruz, onde tivemos o imenso prazer de ter um professor de português que anos depois viria ser eleito prefeito da cidade de São Paulo, depois governador e finalmente presidente do Brasil, embora somente por alguns meses, pois por um motivo torpe e que nunca ficamos sabendo (forças ocultas) renunciou.

Ele foi o homem que ganhou meu primeiro voto, pois essa foi a primeira vez que votei depois disso, como o João Goulart tomou posse como vice-presidente que era, foi deposto em 1964, e aí se instaurou uma ditadura que durou muitos anos como todos lembram. Com isso, nunca mais tive a oportunidade de exercer esse meu direito de cidadão enquanto vivi no Brasil. Imigrei para os Estados Unidos em 1965 e aqui nesta terra que me adotou como residente a princípio e depois como cidadão, quando me naturalizei pude voltar a exercer esse meu direito. O primeiro voto foi para o Jimmy Carter, e até os dias de hoje em todas as eleições presidenciais, até a mais recente quando o Barack Obama se reelegeu; no total de dez eleições.

Mas vamos voltar ao meu inusitado professor de Geografia. O Sr. Paulo era um professor muito alegre e amigo de todos os alunos, estava sempre contando uma piada, ou fazendo uma graça. Era o tipo do professor que todo o aluno gostaria de ter. Eu cursava o primeiro ano ginasial na época, mas ele também foi meu professor no segundo ano também. Ele só tinha um defeito, pois era muito “cara de pau”. Lembro que costumava organizar piqueniques, coletava o dinheiro dos alunos que concordavam em ir e ficava de encontrar com a gente na porta do colégio na manhã do sábado.

Os piqueniques normalmente eram para o Horto Florestal e íamos pegar o trenzinho da Cantareira que saia da estação ao lado da Rua João Teodoro. Levávamos nossos lanches e refrigerantes. Só que chegava o dia e ficávamos esperando, e ele acabava não aparecendo para nosso desapontamento e a festa acabava antes de começar. Aí, na segunda-feira ele aparecia com uma desculpa esfarrapada e prometendo devolver o dinheiro a todos. O tempo passava e tudo ficava no esquecimento, pois ninguém tocava mais no assunto com medo de retaliação.

Aí quando ninguém mais lembrava ele voltava a fazer à mesma coisa. E a gente meio desconfiada voltava a cair no seu golpe, só que na segunda vez combinamos que se ele não aparece a gente iria fazer esse piquenique de qualquer maneira. E assim foi, ele não apareceu e, sem pestanejar, depois de esperar umas duas horas por ele, fomos para a Avenida Rangel Pestana, pegamos o ônibus estações 6, que nos deixou na Estação Cantareira, e seguimos em festa para o Horto Florestal.

Já tínhamos nossos lanches preparados e refrigerantes e passamos um dia fabuloso sem a companhia do nosso querido professor Paulo. E ele continuou com suas desculpas esfarrapadas, até que um aluno criou coragem e o denunciou ao secretário geral, o Sr. Rampazzo, que em seguida proibiu o mesmo a coletar dinheiro dos alunos para essas programações. Mas como amigo e professor ele era muito bom. Mas com um amigo como esse quem é que precisava de inimigo? Como diz o velho ditado.