Nota de falecimento

Em 25 de janeiro de 1954, falecia, aos 400 anos, a senhora Cidade de São Paulo. O féretro saía da Praça da Sé, rumo ao cemitério do Parque do Ibirapuera.

Ainda me lembro bem. Eu e meu irmão fomos levados pelos nossos pais para assistir ao enterro. Que beleza! Balões, fogos de artifício, Parque Xangai, Xangrilá, e muitos outros faziam a alegria da criançada.

É, Dona Cidade de São Paulo, após tantos anos de sua morte, hoje só nos resta a saudade daqueles tempos. Porque nos abandonou tão cedo?

Hoje, seus filhos, Dona Cidade, sentem-se desprotegidos; nossos filhos e netos estão numa cidade bem diferente da nossa época. Não temos mais diálogo; quando estamos levantando (alguns de nós ainda trabalha), eles estão chegando das baladas. Mas a senhora nos deixou uma alegria, sim: de seus filhos conseguirem dormir após ouvirem a batida da porta, sinal de que nossos filhos, ou netos, já chegaram em casa seguros.

Dona Cidade, o que a senhora fez com nossas professoras, que nos deixavam de castigo e eram elogiadas pelas nossas mães? Onde estão os cinemas, em que não se podia entrar sem gravatas? O que a senhora fez com o centro de São Paulo, onde hoje não podemos passear com nossos filhos? Também, não tem importância: hoje eles não querem mais a nossa presença.

E aqueles antigos restaurantes italianos, tão comentados neste site, como estão hoje? E as famílias que se reuniam nos fins de ano? Hoje cada um vai para um lado. E aqueles campos de futebol de terra que a senhora nos tirou, onde se formaram grandes craques do nosso futebol, para se construir enormes prédios? Ah! Já sei, é o progresso. Tá bom.

E os bailinhos de família? Hoje é baile funk, roubo e porrada (às vezes até morte). Os grandes cantores, como Francisco Alves, Orlando Silva, Cascatinha e Inhana, Nelson Gonçalves, Carmem Miranda, Vicente Celestino, e muitos outros que conquistaram a fama e sucesso pelo próprio talento, foram enterrados junto com a Senhora Cidade de São Paulo, e hoje a mídia fabrica alguns papagaios que se sentem astros e intocáveis e somos obrigados a engolir.

Dona Cidade de São Paulo, infelizmente a senhora nos deixou muito cedo.

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