Nosso Barítono

A turminha se reunia diariamente ao cair da noite, na esquina das Ruas Capichanã e Cinco de Julho… Vila Nair… Sacomã… Ipiranga e ali o papo corria solto, entre piadinhas, aventuras e mentirinhas até que em altas horas (22h no máximo) o bando debandava (Ops!) …cada um para sua casa, para enfrentar no dia seguinte o trabalho e até a escola para alguns mais afortunados…

Naquela esquina funcionava a marcenaria do seu Pires, um “mulatão” alto e de poucas palavras que era casado com uma portuguesa, Dona Júlia, mãe do "Zé da serraria" …ah! O Zé da serraria ou Zampanô, como era apelidado, talvez, era uma homenagem à figura do herói da Gelsomina, no filme Estrada da Vida…

O nosso Zampanô se diferenciava do grupo de jovens, pois era mais velho, entretanto se encaixava na “molecada”, participando de leve nas brincadeiras e se sentia prestigiado pelos pedidos… Canta… Canta… E então nos deliciava com músicas italianas… Ave Maria (cantava ajoelhado); Torna Surriento; Mari, Mari; O Sole Mio e tantas outras.

De vez em quando a turminha fazia uma extravagância… Combinávamos de ir até a cantina do Tito Schipa, na Rua Ana Neri, em uma Travessa da Avenida do Estado… Dinheirinho contado, “uns na melhor, ajudando uns na pior…”

Lá pelas 10h ou 11h da noite (falei em extravagância, né?), depois do namoro, o pessoal se reunia no Bar São Paulo/Santos, na Rua Bom Pastor e de lá para a aventura… Tomávamos o ônibus 23 "Fábrica" em animada algazarra e falatório…

Chegando a tal Pizzaria, todos um tanto receosos, pois não éramos habituados a tais eventos, sentávamos em uma mesa, normalmente, meio escondidos. E ali, depois de alguns goles de vinho e uma ou duas redondas, o papo começava a fluir de maneira menos difícil…

E no burburinho de mesas, pessoas e vinhos alguns cantores entoavam as mesmas músicas que o Zampanô nos brindava semanalmente. E depois de algumas taças nossa turminha ficava eufórica e pedia ao nosso barítono que demonstrasse suas qualidades musicais… Entretanto o nosso Zampanô era tremendamente tímido e só depois de mais alguns goles concordava em cantar…

Lembro-me muito bem de sua expressão desconfiada, seu nariz arrebitado, suas orelhas e sua carequinha já vermelha… E vamos lá… Cantou e encantou…

Na primeira vez, que lá estivemos, “lá pelas tantas”, o Grandão, o mais entusiasta e que organizava tal extravagância, calculando o "quantum" de nosso orçamento pediu a conta… E então chegou um senhor até nossa mesa, e indicando um outro grupo, disse:
– "A conta de vocês já está paga…”

Naquela noite, voltamos a pé da Mooca até a Vila Nair… E o Zampanô, deve ter acordado muita gente, pois soltou seu vozeirão pelo trajeto todo…

Ao chegar em casa, ainda meio alegre, meu pai, apenas deu uma balançada de cabeça… Foi o suficiente…

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