Nossas águas

Nosso país é rico. Temos a riqueza e a beleza da fauna, das florestas, dos verdes campos, do exuberante prado, das campinas, do solo fértil onde se plantando tudo dá. Temos água em abundância, temos liberdade e paz. Donos de tamanha fortuna, bens suficientes para manutenção da vida, pouco valorizamos. Nessa imensidão de riqueza a fome e a miséria já não deveriam existir. Mas o consumismo sem limites, o desperdício desenfreado, inconsequente, tomou conta da nossa gente.

A água, nosso bem maior, que outrora com esforço era retirada dos poços, devido à contaminação dos lençóis freáticos foi preciso criar o Departamento para Tratamento das Águas. A partir daí foram fechados os poços, e ela chega tratada através da torneira, com muita comodidade, sem sacrifício algum. Por chegar tão fácil, com mais facilidade ela se vai. Dentre outros desperdícios, a água tratada é usada para "varrer" o quintal e a calçada.

E na contramão da situação, sem sentido e sem lógica alguma, aumentaram a poluição das nascentes e a destruição dos rios, muitos deles são depósitos de toneladas de todo o tipo de lixo e milhares de litros de esgoto. O Rio Pinheiros, como tantos, que em outros tempos a água corria límpida, hoje vive esse sofrimento. O país abundante em água começa a se preocupar em que o precioso líquido venha a faltar. Operação Defesa das Águas, muitos a conhecem, mas em realidade poucos a defendem.

O rio da minha infância, que passava embaixo da ponte da Estrada de Itapecerica da Serra, com a construção da Rodovia foi aterrado e com as chuvas de janeiro de 2010 o lugar ficou todo alagado. Um ano se passou e por esses dias retornei àquele lugar. Surpresa boa! De emoção transbordou o meu coração. O rio resistiu, aflorou e segue caudaloso, tranquilo como se a mão do homem não o tivesse incomodado. Por um momento, voltei no tempo, me vi sentada ao lado do meu pai, na beira da água esperando o peixe morder a isca.

Cheguei até ouvir a recomendação da minha mãe:
-"Tragam só dois peixes".

Sim, dois peixes somente eram suficientes para uma farta refeição. Até mesmo Sansão, meu gato angorá, se deliciava como uma fatia daquela pescaria. Nada podia ser desperdiçado. Dizia meu pai:
-"O alimento é sagrado, desperdiçá-lo é pecado, enquanto alguns jogam o que comer fora, muitos passam fome nesse nosso Brasil tão rico".

O alimento é sagrado, e a água também. Sem ela não há alimento, ela é condição essencial para a existência da vida. Água! Não há tecnologia que consiga fabricar, somente a natureza é capaz de nos dar.

Prosseguindo naquele dia de recordação cheguei á outro local, onde embaixo da ponte da Estrada do M'Boi Mirim, próximo à Cantina Veneta, passavam as águas da Guarapiranga. Lá morava a tia Deolinda, o melhor final de semana era quando minha mãe e eu íamos visitá-la. O acesso a casa era feita de barco, e quando não tinha nenhum barco no local era só tocar o sino que ficava preso ao pé de Pinheiro, que logo apontava a embarcação.

Durante o percurso minha mãe agarrava firme a borda do barco, rezava alto pedindo para todos os Santos, tamanho o medo de andar de barco que ela tinha. Eu não tinha medo, mas frente aquela “paúra” toda, eu também rezava, baixinho. Durante a travessia, o vento da tarde trazia o delicioso cheiro das broas de milho polvilhadas com canela, assadas no forninho à lenha, vindos da casa da tia. E no cair da noite, minha tia colocava varas de anzol na beira da água. Na manhã seguinte, quando o orvalho ia se dissipando,aquecido pelo calor do sol que despontava no horizonte, era só ir buscar o peixe.

Ansiosa eu aguardava pelo convite da tia:
– "Se a tarde estiver fresca, vamos passear de barco".

E então saíamos. A tia e eu remando naquele mundaréu de água, e ela ia apresentado tudo, fazia questão de mostrar, pois conhecia cada palmo daquele lugar. Ela falava:
– "Aqui é um gigante braço da represa".

As garças brancas, os sabiás, os nhambus, até um imponente ouriço em meio aquele elegante verde eu conheci.

Na parada primeira descíamos do barco para colher as deliciosas e graúdas amoras vermelhas e ocas por dentro, que ficavam escondidas nos arbustos entre ramas e espinhos, e também a amora “Cambuí”, que era de cor verde e doce como mel… Um delicado pé de araçá da casca amarela, tão carregado que chegava a pender para o lado. E a tia sempre dizendo:
– “Devemos colher as frutas maduras e somente o que vamos comer, é preciso deixar para os pássaros que vão espalhar as sementes por esse mundo a fora”.

Rodeada pelas amoras, araçás e outros frutos mais entre as pedras brotavam fios de água cristalina e transparente vindas daquela nascente escandalosamente bela. Ali a água fluía livremente como se fosse uma artéria irrigando aquele gigante braço:
– "Água maravilhosa! Devemos respeitá-la", dizia a tia.

São Francisco de Assis por certo tinha esse conhecimento. No seu poema "O Cântico das Criaturas" ele escreveu: "Louvado seja Senhor, pela Irmã Água, que é tão útil, tão humilde, preciosa e casta".

Continuávamos remando, tendo a impressão que chegaríamos ao Atlântico, até que a tia dizia:
– "Estamos nas costas da Guarapiranga, e lá bem distante, onde a vista quase não alcança é à frente da represa, onde as pessoas da cidade vão passear".

Eu falava para a tia:
– “Não é preciso ir até lá, a beleza está do lado de cá”.

E ela gostava, sorria satisfeita. Voltando pela margem direita, avistando uma casa aqui, outra acolá e muitos pés de pinheiro. Na parada derradeira, para encerrar aquele harmonioso passeio em grande estilo, enquanto a brisa da tarde soprava suave, paradas, no balanço lento do barco, aguardávamos: quando então, no instante do mais puro encantamento, para jamais ficar no esquecimento, as Gralhas Azuis num alarido de felicidade e euforia, em revoada retornavam aos Pinheirais para o merecido descanso. Haviam cumprido a missão, durante todo o dia semearam o pinhão por toda aquela região.

Anos se passaram, e nesse dia de recordação, foi muito grande minha decepção. O gigante “braço” da represa foi esquecido, abandonado, deixou de ser irrigado, nem um dedinho restou. Só esgoto a céu aberto vindo da quantidade de casas empilhadas. Amontoados de todo tipo de lixo, em cada canto dá prá se notar. A nascente também desapareceu. Bem na Cabeceira daquela Nascente, hoje está o Cemitério das Cerejeiras.

Só o pinheiro, onde eu tocava o sino prá chamar o barqueiro, presenciou toda a transformação.

Pois à sombra do velho e solitário pinheiro eu me entristeci, contei a ele o quanto me aborreci de ver como estava tudo ali e me questionei:
– “Como pudemos permitir? Nada foi feito, eu também nada fiz para impedir, uma palha sequer eu movi”.

Enfim, esses acontecimentos se passam na Zona Sul, região das imediações de Santo Amaro. Porém, fatos como esse certamente ocorrem em outros pontos da nossa grandiosa cidade de São Paulo e em tantas outras partes da amada terra Brasil.

João Guimarães Rosa há muito já disse: "Água é como a Liberdade, só tem valor quando acaba". Sem água não pode haver vida. Como a certeza da morte, os homens se esquecem disso com frequência. E quando a água vier a faltar, a humanidade se arrependerá do quanto fez a Mãe Natureza chorar.

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