Lá no alto da Serra, nos idos anos da infância paulistana, quando morávamos aqui no Brooklin, mais pros lados de Santo Amaro, íamos aos domingos, vez ou outra, passear e almoçar em São Roque.
Meu pai tinha um Ford preto, o ano não me recordo, mas sei que era vistoso e tinha um porta mala bonito. Meu irmão andava sempre com um estilingue no pescoço e bolinhas de gude como munição. Nossa mãe não gostava muito, mas ele era teimoso e meu pai não dizia nada, como que aprovando.
Pois bem, sempre parávamos lá na Serra e meu mano, já de estilingue na mão, ficava procurando passarinho para atirar e numa dessas feitas, ele deu uma estilingada e errou o alvo, atingindo a cabeça de uma senhora de idade que estava próxima. Foi aquele alvoroço e meu irmão falando que foi sem querer, mas como o conheço bem, não acreditei e fiquei quieto.
Meu pai correu para acudir a velha senhora e meu irmão correu para dentro do carro, escondeu o estilingue e virou um anjo. Felizmente, nada grave, apenas um "galo" na cabeça, mas a senhora esbravejava mais que onça preta.
Mas, mesmo assim, meu irmão não largou do estilingue, não havia como, apesar dos pedidos de minha mãe e dos amigos.
Porém, um dia, no quintal da nossa casa, aqui na Parada Petrópolis, lados de Santo Amaro, apareceu um beija-flor em nosso abacateiro, e lá estava meu irmão: uma estilingada e o indefeso pássaro caiu ao chão tremendo e se debatendo todo e meu irmão não teve a coragem de pegá-lo.
A nossa vizinha, Dª Dolores, viu a cena e disse ao meu irmão: “E agora, Ito, o coitadinho do passarinho morreu e seus filhotinhos vão morrer de fome e frio, você já pensou o que fez?”. Lágrimas começaram a rolar pelo rosto do meu irmão; na mesma hora ele quebrou o estilingue.
Após esse fato, eu via meu irmão rezando várias noites seguidas pelo erro que cometeu e indo lá na Igreja do Brooklin, com o padre Carlos, confessar, e com remorso perguntava pra mim:
– Cideme, será que os filhotinhos vão viver?
E para consolá-lo, eu falava:
– É lógico, outro dia eu vi dois filhotinhos do beija-flor lá no abacateiro.
Ele abria um largo sorriso e todos os dias ia lá ver se apareciam os filhotes de beija-flor.
Foi uma lição de vida que ele nunca mais esqueceu.
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