A leitura de crônicas é um hábito que cultivo há muitos anos. É um gênero literário leve, descompromissado, curto e que, quase sempre, se refere ao cotidiano. Acho que Machado de Assis foi o nosso primeiro grande cronista. Escrevia sobre tudo: teatro, música, política, fofocas da corte e brigas de galo. Quem me despertou o gosto foi Guilherme de Almeida – O Príncipe dos Poetas Brasileiros -, que manteve no O Estado de São Paulo uma coluna chamada Eco ao Longo de Meus Passos, por mais de vinte anos. Comentava os acontecimentos do dia, ou da semana, com classe e elegância.
Por essa mesma época, o "jornalão" ainda contava com Luís Martins, sóbrio, estudioso e grande conhecedor das artes plásticas. Escreveu um belo livro chamado Futebol da Madrugada, com as crônicas publicadas no jornal. Provavelmente edição esgotada.
A Folha de São Paulo sempre manteve entre seus colaboradores bons cronistas. O mais antigo de que me lembro é Lourenço Diaféria, numa época em que a ditadura militar dava as cartas. Corajoso e irreverente, teve problemas com os generais por não abdicar de suas ideias.
Depois, se não me engano, veio Flávio Rangel, conhecido diretor de teatro que assinava a coluna Os Prezados Leitores, sempre com correção e bom humor.
Com a morte de Flávio Rangel, a coluna passou para o mineiro Oto Lara Rezende. Inteligente, sofisticado e sutil, suas crônicas eram mui saborosas. A coletânea de sua produção na Folha está no livro Bom Dia para Nascer.
Hoje aquele espaço é ocupado por Carlos Heitor Cony, que nos brinda com seu talento e sua coragem. Teve papel destemido na luta contra a ditadura e jamais foi subserviente ao poder.
Fernando Sabino foi outro expoente no gênero e a leitura de seus textos era obrigatória.
O nosso Ignácio de Loyola Brandão, de Araraquara, romancista, mas cujas crônicas se lê com prazer e emoção, não deve ser esquecido.
E, finalmente, o grande mestre da crônica, Rubem Braga. Impregnadas de doce lirismo, seus escritos são verdadeiros poemas. Inovador, depois dele a crônica deixou de ser vista como literatura de segunda classe e ocupa, hoje, merecido destaque nos meios de comunicação. Rubem Braga passou por todos os grandes jornais e revistas do país, transformando em poesia a singeleza de um pé de milho, o canto de um pássaro ou a tristeza um barco imóvel à beira de um rio. Rubem Braga era também um competente e respeitado critico de arte. Amou muitas mulheres. Aos homens reservou seu lado ranzinza, rude, intolerante. Não quis passar pelo sofrimento da doença que o acometera e optou por morrer em paz, em quarto de hospital, conforme seu biógrafo.
A lista é imensa. Por questão de espaço, não fiz referência a outros brilhantes cronistas, mas como este não é local para literatices, mencionei principalmente aqueles que li e admirei.
Nós, aqui no São Paulo Minha Cidade, não fazemos outra coisa senão exercitar a arte da crônica, relatando experiências pessoais, episódios do cotidiano, memórias, passagens pitorescas, de forma simples, despojada e, quando possível, com uma pitada de humor ou poesia, que não fazem mal a ninguém. Heranças do velho Braga.
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