Festa de aniversário – 1959

Minha "nonna" estava furibunda. Aos trancos empurrava-nos, eu e meu primo Berto, pela rua, em direção à nossa casa. "Falava pelos cotovelos", dava-nos pescoções.

Ela falava, falava e nós choramingando. Naquele momento percebi a rapidez com que um passa de "cherubino" (querubim) a um "pezzo d'asino" (pedaço de asno).

Entramos em casa. Na sala, minha avó virou duas cadeiras para a parede, onde havia um enorme crucifixo, e disse-nos, apontando para o Cristo: "Sentem-se e peçam perdão a Ele! Porque eu nunca vou perdoar vocês. Deus santíssimo, que vergonha!". Minha "nonna" foi para a cozinha falar com minha mãe. Estávamos de castigo.

Eu, ali sentado, olhava para o Cristo e perguntava a ele o que eu havia feito de errado. Olhava para o Berto e sentia uma enorme vontade de rir. Mas, rir naquele momento significava risco de morte, voltei o meu olhar novamente para "Gesù"…

Horas antes, estávamos na cozinha, rindo e brincando, enquanto a "nonna" embrulhava o presente de aniversário e falava do bolo artístico, dos doces e salgados que a dona Teresina havia feito para a festa do neto. Minha mãe brincando, olhou-nos e disse:

"Com que então, vocês vão tirar a barriga da miséria!" Rimos muito.

E minha avó enfiou o presente dentro de uma sacola de barbante e fomos para a festa. Dona Teresina recebeu-nos à porta, com aquela gargalhada alegre que só uma napolitana sabe dar e foi dizendo: "Entra, Adelina! Entra! Mancava soltanto vui pà incominzià la festa!" (Entra! Faltava só você pra festa começar!).

Na sala, a mesa farta! Um bolo enorme, representando o Estádio do Pacaembu, com sua Concha Acústica. No centro do campo, o "scudetto" (escudo) do "Palestra" e, numa das traves, o Periquito. Meus olhos saltaram das órbitas e a minha boca se encheu de água. As delícias não paravam aí: Canollis, brigadeiros, balas de coco, embrulhadas em papel de seda, beijinhos, olhos de sogra; empadas de palmito, risollis; tubaína, guaraná… "Ostia"! Era um banquete dos deuses!

Tão empolgado eu fiquei, que abri a minha bocarra e gritei: Oba! Nós vamos tirar a barriga da miséria!!! "Addio alla pecundrìa!" (Adeus à penúria!). O sorriso de dona Teresina desapareceu. Minha "nonna" ficou branca e deu-me um tremendo beliscão na bunda. Pigarreou e disse entre os dentes: Me la pagherai, stronzo! (Vais-me pagar, seu m…!). Depois olhou para dona Tereza e, pedindo desculpas pelo meu comportamento, disse toda sem graça:

"Lei sà come son'esti creature…" (Você sabe como são as crianças…).

E dona Teresina deu um sorriso e, piscando, em tom de brincadeira, alfinetou a minha avó: "Si Adelì. Sò che le creature diccon quel ch' ascoltano de' padri…" (Sim, Adelina. Sei que as crianças dizem aquilo que ouvem dos pais…), e voltou a dar aquela gargalhada deliciosa. Minha avó calou-se e só abriu a boca para cantar os parabéns (enquanto dava-me sucessivos beliscões na bunda).

E muda ficou, olhando-me com olhares de "rabbia" (raiva). Raiva de avó, que não era grande o suficiente para privar-me das delícias da festa. E, como "gli occhi son più grandi che la panza" (os olhos são maiores que a barriga), esqueci a "nonna" e fui "tirar a barriga da miséria".

E o Pacaembu "fatto a pezzi" (feito em pedaços) foi distribuído aos convidados. Provo um bocado. Delícia de massa macia e úmida, recheada com uma camada de doce de coco e passas… Olho para o meu primo, que como um louco esfaimado aguardava ser servido. Ele detestava coco! Divirto-me pensando na reação que o Berto vai ter…

Ele pega seu pratinho com o bolo, enfia o garfo, tira um pedaço e mete na boca. Depois de duas mastigadas, ele "sputta" (cospe) o bolo no chão, fazendo mil caretas. Olha indignado para vovó e diz choramingando: Ma, "nonna"! Este bolo tá uma m…! E cospe de novo no piso.

Foi a gota d'água! Vovó levantou-se e torceu a orelha do Berto. Fuzilou-me com o olhar e disse: Pra casa! Já! Desculpou-se com D. Teresina e, aos trancos, levou-nos de volta para a casa.

Tudo isso a "nonna" contava para minha mãe. Eu, olhando para o Cristo na parede, disse a Ele em pensamento: Logo logo, minha mãe vai me pregar na cruz, como o Senhor, ou talvez, como diz o tio Amedeo, vai me pregar pelos "coglioni"…

De repente a gargalhada da minha "mamma" ecoou pela casa. Escandalizada, a minha "nonna" admoestava a minha mãe. Repreendia a coitada que não conseguia conter o riso. Vovó saiu resmungando sobre de quem era a culpa da minha má educação. Fosse ao tempo dela, eu e meu primo estaríamos com as pernas cheias de vergões deixados pela vara de marmelo…

Chorando de tanto rir, "mia mamma" tirou-nos do castigo dizendo-nos que fossemos brincar. Parou de rir por um momento e disse, num tom mais sério, que eu nunca mais repetisse o que ouvia. Que ela havia feito uma brincadeira. E que, às vezes, brincadeiras repetidas podiam ofender as pessoas… Não disse mais porque nova onda de gargalhada aflorou… Disse ao Berto que, se não gostasse de algo, tirasse da boca e recolocasse no prato. Que nunca mais fizesse o que fez. Não era educado.

Berto, mais que depressa, com a orelha dolorida, correu para a sua casa. Não disse nem "ciao" (tchau).

Estava saindo para brincar quando vi a dona Teresina vindo na minha direção. Aproximou-se, agarrou-me pelo braço e, no "patuá" da Mooca, perguntou pela minha avó. Disse-lhe que a "nonna estava brava, que devia estar no quarto. Dona Teresa olhou-me nos olhos e disse: "A Adelì num mi vai fare essa disfeita! Num mi vai mesmo!". Soltou o meu braço e disse-me: "Vai lá, na festa. Mi vai lá tirá a barriga da miséria, vai!". Riu daquele jeito napolitanamente delicioso e, voltando-me as costas, entrou, gritando pela minha "nonna": "Adelì! Adelì! Mi vorta pra festa. Anda! Num si faiz di difícil… Adelì!". Afundou-se pela nossa casa adentro.

E eu "vortei" para a festa.

E vovó e D. Teresina se entenderam.

E lá se vão 50 anos e eu ouço ainda, claramente, o riso de dona Teresina…

e-mail do autor: [email protected]