Nos bares da vida

Sempre gostei de música. Desde garoto, pedia para o meu pai comprar os álbuns dos meus artistas favoritos. Na época não havia o CD e sim os discos de vinil, os famosos "bolachões". Meu progenitor chegava em casa trazendo o novo Led Zeppelin ou alguma coisa dos Beatles para curtirmos na nossa velha vitrola, que eu nem imagino onde foi parar. Na adolescência veio o desejo de, assim como meus ídolos, ter uma banda de rock, me tornar famoso e vender milhões de cópias dos nossos álbuns. Meus pais não podiam me comprar uma guitarra Ibanez ou Fender, então a solução foi adquirir uma bem simples para começar a ter a aulas com um professor que morava na Vila Carrão, zona leste da capital. Como era 1985, período de redemocratização, Rock In Rio e uma explosão de grupos achei que também poderia galgar os degraus da fama e viver só de música. Não demorou muito para formar a primeira banda com alguns amigos da minha Vila. Também não demorou para o grupo acabar, pois éramos muito ruins e a vizinhança ficava enfurecida quando começávamos a sessão tortura, digo a tocar. Em seguida entrei em outra banda, desta vez, trocando a guitarra pelo contra-baixo, instrumento com o qual me identifiquei melhor. Com meu salário, que mal dava para as despesas pessoais, consegui comprar um baixo Gianninni, cuja tradição musical sempre foi das melhores. Nesta época, 1989, veio uma das piores fases da minha vida. Fiquei desempregado e como sempre nessas situações a auto-estima fica ao nível do solo e a pressão familiar é enorme. A saída foi me virar com a música. Passei a freqüentar a região do Bixiga, famosa pelos bares e casas de espetáculo. De bar em bar começava a tocar às 22:00 horas e ia até as 4:00 da manhã. Não dava para ganhar muito, pois dono de bar só quer tirar a sua pele, vender muita cachaça e te pagar uma merreca. Toquei no "Chiquita Bacana", Café Piu Piu, Terral e tantos outros que não me lembro. Conheci muitas garotas legais e também um monte de bêbados chatos que pediam: "Toca Raul". Fiquei quase um ano nessa vida até que uma madrugada descendo a 9 de Julho a pé, pois estava sem carona, fui abordado por dois caras armados. Apesar de implorar levaram meu contra-baixo e o dinheiro que havia ganho naquela noite. Foi triste ver os malandros se afastando com meu instrumento dando risadas da minha cara.
Esse episódio marcou o fim da minha aventura no Bixiga. Felizmente pouco depois arrumei um emprego na Florêncio de Abreu e pude comprar outro baixo, mas aí já é outra história.