No tempo em que o Brasil dava de goleada

22 de março de 1970. Acordei cedo, ou melhor, não dormi durante toda a noite, tal era a ansiedade pelo fato de que este seria o dia em que eu assistiria a um jogo da Seleção Brasileira no estádio.

Eu tinha dezenove anos, morava em Itaquera, no subúrbio de São Paulo, zona leste. Na época não havia o Metrô e nem pensar em carro, que era coisa de rico.

Fomos de caminhão, isso mesmo, fomos no caminhão do seu João Coutinho, um Mercedes 1113 basculante com o qual ele entregava pedra e areia e nos finais de semana levava o time do Santa Cruz de Guaianazes para jogar fora.

Fomos na caçamba, vinte jovens cantando e tentando batucar alguma coisa nos instrumentos de couro que pegamos emprestados na Escola de Samba do Falcão do Morro. Todos já tinham seus ingressos, pois o Giba, que havia organizado o evento, ficou encarregado de comprá-los com antecedência.

O Morumbi estava lotado e o placar eletrônico marcava 110.000 (cento e dez mil) pagantes, como sempre deveria haver muito mais, sei que não dava para tirar o pé do chão e recolocá-lo novamente. Não importa, valeria a pena, era a Seleção que estava em São Paulo preparando-se para a Copa do Mundo no México.

Será que Pelé jogaria? Todos esperávamos que sim, pois no jogo anterior ele havia ficado no banco como reserva de Tostão e vestia a camisa 13.

O time entrou em campo e foi uma saraivada de fogos e bandeiras agitadas, naquele tempo era permitido entrar com fogos e bandeiras com mastros, todos queriam ver a seleção e não estavam lá para provocar a torcida adversária e muito menos para arrumar encrenca.

Quando a fumaça abaixou e o pessoal da minha frente sentou-se, eu comecei a procurar os jogadores e identificá-los, e meu coração batia ao ver cada um deles durante o aquecimento.

No gol estava o jovem Leão (para agradar a torcida paulista), e pelo fato de que vinha jogando muito e dividindo a preferência com Ado, outro jovem, e com Félix, o preferido de Zagalo. Lá estavam Carlos Alberto com sua elegância e Brito com sua cara de mau e barba a fazer. O parceiro do Brito naquele dia foi Joel, que estava comendo a bola no Santos e em toda a eliminatória. Pude ver, dando entrevista, o Clodoaldo, ainda garoto cabeludo, e ao lado o já calvo Gerson batia uma bola com o blackpower Paulo César, mais tarde Caju.

Lá estava ele, o próprio, Pelé, sua majestade, em carne e osso, saltitando ao lado de Dirceu Lopes e provavelmente combinando o posicionamento dos dois em campo. Passeando pela direita do lado oposto onde eu estava pude ver Jairzinho, que exibia um corpo de gladiador.

Dois dos jogadores em campo eu não consegui identificar e só fiquei sabendo quem eram quando, pelo radinho de pilha, ouvi a escalação do Brasil e eles eram o lateral esquerdo Marco Antonio e o centroavante Roberto Miranda, ou Roberto Maluco, como era chamado no Rio. Tostão estava no banco.

Durante o jogo só deu Brasil, parecia que estávamos jogando com uns quatro jogadores a mais que o Chile.

Placar: Brasil 5 – Chile 0
Pelé 2
Roberto 2
Gersom 1

Esta semana eu vi o caminhão do seu João Coutinho. Agora não é ele que dirige e sim seu filho. Seu João morreu, é parte de um passado saudoso tal como o time da seleção que dava de goleada.

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