Retrocedendo cinco décadas atrás, voltando ao tempo de menino vivido lá no Bairro do Tatuapé, veio-me a lembrança da época dos bondes. Havia os abertos com estribo, que era a maioria, e os fechados, conhecidos por "Camarão". No teto dos bondes tinha um varão com alças dependuradas (não sei se é a palavra exata) que estava fixado no teto todo do bonde, terminando em um relógio onde era registrado cada passageiro que pagava ao cobrador.
Todas as vezes que ele puxava a alça tinha um som característico de "din din" (papai brincava dizendo – “din din dois pro chefe um pra mim”). Os ônibus, ao contrário dos bondes, entregavam aos passageiros um (ticket) comprovante do pagamento da sua viagem. Depois surgiram as catracas que registravam cada passageiro cobrado. Engraçado, nos bondes de antigamente subiam tanta gente e desciam que eu não entendia como dava para o cobrador perceber quem havia pagado…
Meu pai mesmo, juntamente com minha mãe e os quatro filhos, nunca deixou de pagar. Dava para ver nas pessoas da época a "honestidade" estampada no rosto de cada um. Não sei se vocês concordam comigo, mas ultimamente a palavra honestidade está em falta no nosso mundo. Para nós, adolescentes da época, o sonho era andar nos estribos do bonde e saltar dele em movimento, mas proibido pelo cobrador. O Tomé, muito observador, notou que aos sábados, à tardinha, os bondes estavam mais vazios e havia um lugar bom para saltarmos dele em movimento, que era na subida da Av. Penha de França, bem na curva da praça, onde ele era bem lento podendo saltar com segurança, estando o cobrador na parte da frente do bonde junto com o motorneiro por ser o final da linha.
Conseguimos nosso intento, e por várias vezes lá estávamos nós aos sábados à tarde andando no estribo do bonde, apesar de ser por poucos minutos, e saltando dele em movimento. Mas quis o destino que em uma dessas viagens o próprio Tomé, em um salto, tropicasse no paralelepípedo da praça e fosse de boca ao chão. Voltamos outras vezes, levando as meninas, é claro, para demonstrarmos a nossa coragem e astúcia (na verdade era para aparecer), mas sem a presença do Tomé que nunca mais quis gozar dessa proeza.
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