No tempo da marmita

Lá pelos anos 70 a 80 não havia muitos ônibus. Eu morava no Grajaú, na Zona Sul da cidade de São Paulo. Apesar de ser um lugar pitoresco, na época agente pescava na represa Bilings, que tinha água limpinha e suas margens eram verdadeiros jardins com matas nativas intactas. Muitas famílias passavam os finais de semana lá.

Entretanto, como nem tudo e perfeito, não haviam ruas asfaltadas, também não havia iluminação pública, portanto as ruas eram escuras.

Eu trabalhava de office-boy no bairro do Real Parque, bem perto da ponte Morumbi. Tinha que descer na Avenida Santo Amaro e caminhar, mais ou menos, uns dois quilômetros até chegar ao local de trabalho. Saia às 18h fazia o mesmo percurso inverso a pé, além de pegar um ônibus bem lotado ate a cidade Dutra, onde eu fazia o “ginasial” no colégio estadual Beatriz Lopes.

O conceito de lotado era um pouco diferente: era lotado mesmo, com pessoas penduradas nas portas. Um dia após esperar bastante tempo pelo ônibus consegui grudar no ferro e fiquei pendurado; a gente ficava na parte traseira e deixava o ônibus encher. Aquilo para um garoto de 17 anos era uma aventura!

Naquela época não havia vale refeição e a maioria levava marmita. A gente usava mochilas, que tinham um cadarço pra pendurar nas costas. Como sempre, os mais jovens aventureiros faziam questão de ficarem pendurados na porta; às vezes o ônibus passava pelos pontos e nem parava. A agente tirava o sarro do pessoal que ficava nos pontos sem poder embarcar; mas aconteceu de alguns de nós levarmos pedrada, laranjadas nas costas, pois, claro, as pessoas ficavam revoltadas.

Em certo dia, eu me dei mal logo após passar pelo ponto do Parque São Paulo; arrebentou o cadarço da minha mochila onde estavam os meus cadernos e a minha marmita, a mochila se estatelou no chão e a marmita saiu da mochila se abrindo, além de deixar espalhado na calçada o cardápio de quase todos os dias: arroz, feijão e um ovo.

Imaginem a cena: eu olhando para trás e sem nada poder fazer. Eu não poderia descer para pegar a mochila, porque iria sofrer retaliação do pessoal que ficara no ponto. Sendo assim, fiquei sem mochila, marmita e material escolar.

Acho que foi ai que eu resolvi parar de estudar, depois, quando fiquei mais velho fiz o supletivo.
Sabe, apesar de hoje o transporte público estar longe do ideal não se compara com os daquele tempo.

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