Tarde de Terça Feira.
Mês de maio de 2005
Ainda não são 14 horas.
Venho das entranhas da terra, da maior estação do metrô paulistano e passo por uma Praça da Sé apinhada, desviando de "meninas-sanduíche" anunciando compra e venda de ouro, banquinhas de vendas de passes e cartões telefônicos, lupas – "especiais para ler a Bíblia" -, ambulantes de balas, chocolates, revistas e mil outras miudezas.
E já estou chegando no Páteo do Collégio espaço grande em torno do monumento "Gloria Imortal aos Fundadores de São Paulo" que chama o nosso olhar para cima e não temos como deixar de ver também a torre do Banespa, um ponto alto da cidade, de onde é possível ter em uma visão de 360 graus, muita coisa da cidade.
Entro pelo Museu de Anchieta, passo pelo simpático café e chego ao páteo interno que abriga o restaurante e todo um espaço verde, com um chafariz, árvores que são casas de passarinhos, arbustos de café, plantinhas mais baixas e bancos convidativos a uma reflexão relaxante.
E vem chegando seu Vicente, um velhinho miúdo, com seus passinhos arrastados e seus vivos olhinhos azuis. Com seus 88 anos – acho que é o mais velho da turma -relembra seus tempos de dançarino. Está sempre procurando uma criança visitante para contar alguma coisa do seu tempo.
Geralmente seu Alfredo já está lá. Foi alfaiate na Vila Prudente muitos e muitos anos e sempre tem histórias novas para contar. Gosta de músicas antigas brasileiras -conhece e fala com conhecimento de causa sobre sucessos de Francisco Alves, Orlando Silva, Silvio Caldas. Como trabalhava em casa, ouvia muito o radio e como o "rei da Memória" conhece muito de musica. Gosta muito também de músicas argentinas (Gardel e Libertad Lamarque), mexicanas e a grande música italiana.
Se ainda não chegou, logo chega seu Hugo, com suas histórias de Carmem Miranda, de quem é fã incondicional e lembranças de seus tempos de morador da Vila Maria Zélia, lá no Belém.
Seu Hormindo vem chegando, carregando sua almofadinha cor de ouro para tornar mais confortável o tempo em que estiver sentado para conversar. Do alto de seus 82 anos, só tem palavras de simpatia e relembra sua admiração por Carlos Gardel de quem tem 500 gravações, e de quando cantou na Argentina. No grupo há 10 anos é considerado o rei do tango.
– Seu Hormindo canta um pouco de "El dia em que me Quieras", aquele tango famoso.
E ele canta e encanta.
Mas, outros chegam e vamos ver o que tem de novidades.
Milton, um jovem adulto com pouco mais de 30 anos, entre a maioria de idosos freqüenta o grupo desde que era menino de calças curtas. Seu hobby são músicas brasileiras que ele conhece a fundo. Hoje ele trouxe uma vitrolinha de manivela e uns discos de 78 rotações. E todos se extasiam. Fazem questão dos chiados do disco.
O que tem em comum essa turma que está formando um grupo falante e alegre?
É um grupo sem nome oficial, sem estatutos, sem regras e conhecido entre eles como Colecionadores de Discos Antigos.
O grupo inicial teve o Roberto Gambardella, o Roberto Braga, O Braguinha, o Alberto Guimarães, o Maestro Santângelo ,o Wanderley, o Edmundo, o Figueiredo, o Antonio Petti, o Lomuto, o Gouveia… E se reunia no Largo do Tesouro, perto da banca de jornal onde havia uns bancos. O interesse comum era trocar discos, informar onde existia esta ou aquela música, trocar informações. Começou há 35 anos. Trocam musicas, experiências e gravações não de uma época qualquer, mas principalmente sucessos das décadas de 30 a 50.
Logo passaram a se reunir já no Páteo, em um cantinho onde hoje é o estacionamento. E então passaram para um espaço mais nobre.
O grupo aumentou, muitos já morreram, outros desapareceram, mas sempre há um grupo maior ou menor que está por lá, seja por que gosta de música e de conversar sobre isso, seja porque elegeu o espaço como seu "ponto".
Não há hora precisa para chegar, mas é nas terças feiras a partir de 14 horas que o grupo se reúne. Também não há hora para terminar,
Hoje não se trocam mais muitos discos como antigamente, mas ainda há esse costume, continuam prestativos, gravam uns para os outros, procuram músicas pedidas e estão sempre dispostos a trocar e compartilhar o que possuem.
Há muitos colecionadores de discos não só de 33rpm (Lps), mas muito 78 rpm, chegando a alguns milhares de discos para alguns. Os mais modestos tem 3 a 5 mil títulos. Quem tem mais, tem 25 mil.
Há advogados, arquitetos, professores, representantes comerciais, alfaiates, funcionários públicos. A maioria já está aposentada tem tempo de sobra para curtir o que gosta.
Nunca se joga conversa fora. Além de música fala-se de cinema, fotografia, resgata-se a memória da cidade e a memória pessoal. Não se discute nunca política ou religião.
Vem chegando a Pérola, -. Está sempre presente. Uma carioca extrovertida, bonita, charmosa, colorida e muito prestativa É grande colecionadora de discos e tem mais de cinco mil Lps todos organizados, com capas restauradas e uma grande vontade de servir aos seus "pares" ou a qualquer pessoa que apareça pedindo esta ou aquela música. Tem seleção de Boleros Inesquecíveis uma jóia que faz a delícia dos que foram moços na década de 50. E tem muitos discos de fados também. Durante mais de cinco anos foi a única mulher e conseguiu entrar nesse Clube do Bolinha, sem forçar, com seu jeito natural de ser. É a musa do grupo e chegou a ele procurando um bolero que ela ama – "Amorosamente".
– Pérola, você tem alguma gravação do Adágio de Albinoni?
E ela me gravou logo 10 versões diferentes da musica.
Henrique, um apaixonado por músicas clássicas entendido em ópera e com gravações que são raridades, chega junto com os Joaquins.
Todos esperam pelo seu, o seu Alberto, (seu Nenê), no grupo há 35 anos. É quem tem mais coisas a contar sobre o grupo, Gosta de Musica Popular Brasileira. Tem 25 mil discos em 78 rpm e 2 mil Lps. Tem tudo, mas tudo mesmo de Orlando Silva. Fora as raridades como primeiras gravações. É o seu Nenê das rosquinhas, saudado por seu Hormindo "Quem gosta da rosquinha do Nenê sou eu! Quem gosta da rosquinha do Nenê sou eu! – Venha comer, venha provar. Tenho certeza você vai gostar" Mas, seu Nenê é também o "rei da piada", porque sempre tem uma para cada ocasião.
Ademar, Dirce, Wander. Sirlei e eu Neuza, somos recentes participantes. Chegamos por conta de uma outra atividade do Páteo e fomos ficando, adotados pelos mais antigos. Gostamos das conversas, não somos colecionadores, mas temos em comum o gosto por São Paulo, a memória de uma cidade como ela já foi e a troca de experiências é enriquecedora. Ademar toca trompete e gosta de montar rádios de galena. Dirce é um bom papo, Wander vem curtir lembranças do tempo em que era percussionista e tinha o seu conjunto. Sirlei sempre faz coro com outros que gostam de cantar marchinhas de carnaval ou valsas e canções antigas.
Enquanto espero pelos que ainda não chegaram, me dou conta que estou de frente para o que restou de uma construção de valor histórico para a cidade: um pedaço de uma parede de taipa de pilão da antiga sede jesuítica. E a história do Páteo vem aflorando à memória:
13 jesuítas, uma palhoça de 14 pés de comprimento e está fundado o centro de fé de educação de uma vila, futura cidade de São Paulo. A palhoça é aumentada, a igreja é construída, o seminário completa o conjunto. Muito trabalho, muito sacrifício, mas tudo é largado quando os jesuítas são expulsos do país e da sua vila. O governo toma posse, reforma, aproveita a "queda" da igreja e faz construir um grande palácio que é a sua sede. E o "Páteo do Collégio" vira "Largo do Palácio" com chafariz, coreto, obelisco, e tudo a que tem direito. Os jesuítas voltam no meio do século XX, o palácio é demolido e o lugar volta a ser o "Páteo do Collégio" com uma réplica do que teria sido a construção mais antiga. Mais uma reforma e agora o conjunto encanta pelo seu carisma, pela sua significação histórica e religiosa, seu restauro cuidadoso.
Paulo vem chegando. Há mais de 15 anos não falta a uma reunião. Com 79 anos está no grupo há cerca de 18 anos. É bastante ativo, tem uma coleção de mais de 7.500 Lps. É bastante eclético e gosta de todas as músicas, principalmente Música Brasileira (como ele mesmo diz, a prima pobre de todas as músicas do mundo). Tem também coleções da safra das Big Bands americanas entre 1935 e 1945. É filho do primeiro casal de japonês com brasileira na cidade de São Paulo. Tem muitos livros sobre a História de São Paulo, nunca esquece o que promete nem as balinhas de café, que já todos esperam.
Estevam é advogado, e eu o achava meio ranzinza, até conhece-lo melhor. Aí então tem muito a dizer.
Thais – 22 anos, estudante da Faculdade Mackenzie faz pesquisas sobre Cantoras de Rádio e trabalhos sobre música popular. Freqüenta as reuniões há um ano e meio. O grupo para ela é um celeiro de informações. Luiz a ajuda bastante.
Seu Máximo -82 anos mora ali mesmo, no Parque Dom Pedro II. Foi florista de profissão e conta muitas coisas interessantes sobre a decoração das igrejas para casamentos nos anos 50 e de como chegou a fazer até 50 buquês de noiva em um único sábado.
"Toninho Passarinheiro" – 77 anos No grupo há mais de 20 anos. Possui a discografia completa de Orlando Silva em 78 rpm e de outros cantores românticos da música popular brasileira.
Saudades de seu Ângelo – um eletrotécnico que já tinha passado dos 80 anos, colecionador de rádios e muito entusiasmado com tudo. No grupo há dois anos, era a história viva do rádio. Mais de mil horas gravadas em fita e devidamente catalogadas com muitas musicas italianas, constituíram o seu acervo. No pretérito sim, porque quando tudo estava pronto para ser lançada a exposição "No ar… A Memória do Rádio", no dia mesmo em que a exposição seria aberta ao público ali mesmo no espaço do Páteo, ele nos deixou. Foi fazer a rua "rodinha" lá no céu.
E há muitos outros que aparecem vez ou outra, que chegam mais tarde. Há seu Américo, o Ferretti, o Basílio do Ari Barroso,. Os novos, João Carlos, a Do Carmo, a Irlei (irmã da Dolores Duran que sempre trás suas lembranças) , o Lucio – aparece de vez enquando mas sempre é bem recebido – Aderbal , que chegou por convite e agora está sempre lá. Seu Brilhante que reapareceu depois de longa ausência.
E assim como foi se formando devagar, também devagar vai se desfazendo o grupo. São mais de quatro horas da tarde, alguns vão para bem longe, outros ainda vão circular pelos sebos da região da Sé e rever velhos amigos.
– Tchau,
– Tchau….
– Até terça. Não esqueça aquela minha música
As "meninas" se despedem com beijinhos entre elas e com seus "velhinhos" e os "meninos" com apertos de mão ou abraços amigos.
Mais uma semana em que o Páteo do Collégio testemunha amizades, compartilhamentos, trocas e toda uma gama de sentimentos que fluem e conversas nada fiadas. Fazem uma sadia terapia.
Um lugar feliz de gente feliz
Uma outra face de São Paulo