No Museu de Zoologia

Recém-casada, lá estava eu tentando organizar a minha vida. Para mim, era extremamente absurda a idéia de ter que cuidar de casa, usar liquidificador. Batedeira, então, nem pensar. Tudo que cheirasse a submissão era tão abominável e estarrecedor que nem era preciso gastar tempo com esses pensamentos esdrúxulos.

Saída recente da Faculdade de História da USP, sempre me orgulhei de pertencer à geração dos anos 60, época de efervescência cultural, de feminismo, de busca dos direitos humanos, de luta contra a ditadura, de participar de greves, assembléias e passeatas. Tempos de “greve geral derruba general” em pleno Anhangabaú, com milhares de pessoas comprometidas com a construção de um projeto de nação.

Então, eu continuava – como sempre – abraçando a cultura como objetivo maior de vida. O saber representa a forma suprema de beleza, a vibração maior da vida, em todos os momentos, com todos os encantos, encontros e paixões.

Estava matriculada num curso sobre cultura indígena no Museu Paulista – o Museu do Ipiranga. Aprendi muitíssimo e sou imensamente grata à antropóloga Dra. Tekla Hartmann, por tudo o que me orientou, com refinado bom humor, inclusive com o inusitado passeio pelo teto do Museu. A paisagem lá de cima é completa. Os jardins se tornam pequenos e, mais do que nunca, poéticos e coloridos. Aquela parte de São Paulo vista de cima tem um aspecto elegante demais, em todas as dimensões, com um incrível ar de serenidade e pureza.

Mas naquele sábado, as aulas foram suspensas. Algum problema ocorreu com a professora. E eu pensei: “e agora?”. Eu havia acordado cedo, tomado dois ônibus, um frio danado e, ainda por cima, nublado. São Paulo nublado não tem nada de poético. É assustador! Então, para não perder a viagem e não voltar para casa do mesmo tamanho que saí, sem ter aprendido nada, compreendi que a minha única alternativa era tentar uma entrada no Museu de Zoologia, bem pertinho, na Avenida Nazaré.

Estava fechado. Bati e um funcionário jovem veio abrir a porta. Pedi licença, mas ele não permitiu a minha entrada. Insisti, respeitosamente. E ele disse: "Não pode, moça, o Dr. Paulo está lá em cima". Respondi: “Se ele reclamar, eu canto Ronda para ele…”.

Foi assim que entrei no Museu de Zoologia. O Dr. Paulo que estava lá em cima, e que não poderia me ver, era nada mais que o diretor do museu, uma das maiores autoridades no campo da Zoologia e, também, um dos mais respeitados sambistas do país: Paulo Vanzolini.

Acredito ser impossível um paulistano não conhecer Ronda. "De noite eu rondo a cidade a te procurar, sem encontrar. No meio de olhares espio, em todos os bares você não está".

O paulistano Paulo Vanzolini passou a freqüentar as rodas boêmias de estudantes e a compor seus primeiros sambas ainda quando estudante de Medicina, nos anos 40. Em 1945, compôs o samba Ronda, sendo a música gravada apenas em 53. Mas quando perguntado sobre tal criação, afirma ter sido uma bobagem que fez aos 21 anos e que não gosta da composição, alegando ser piegas. Diz: “Minha filha sempre fala que, já que fez, agora agüenta!”.

Ronda é considerada, ainda hoje, uma das músicas mais solicitadas nas noites paulistanas. E Vanzolini afirma que toda a sua biblioteca de Zoologia, que é uma das melhores do mundo na área de répteis e anfíbios da América do Sul, foi comprada por causa de Ronda e Volta por Cima. E Ronda continua lhe rendendo dinheiro até hoje.

Continua Vanzolini: “A coisa mais engraçada é que o povo acha que Ronda é um hino a São Paulo, mas, na verdade, ela é sobre uma mulher da vida. Naquela época, servindo o Exército, eu patrulhava o baixo meretrício. Uma noite, na saída, eu estava tomando um chope, ali pela Avenida São João, quando vi uma mulher abrindo a porta do bar e olhando para dentro. Imaginei que ela estava procurando o namorado. Ele pensava que era para fazer as pazes, mas o que ela queria era passar fogo nele mesmo”.

Bem, quando ali, dentro do museu, eu manuseava documentos, olhando para as exposições de répteis de todos os jeitos, é que me dei conta: o funcionário poderia ficar numa situação embaraçosa caso o Dr. Paulo visse a intrusa. Assim que escutei o autor de Ronda arrastar a cadeira no andar de cima, resolvi sair de fininho, agradecendo a gentileza do rapaz, com um medo enorme que ele viesse a perder o emprego por minha causa. Rápido estava eu, de novo, andando pela Avenida Nazaré, esperando o ônibus e com um receio maroto de que "nesse dia então, iria dar na primeira edição: cenas de sangue no bar da Avenida São João".

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