Costumo almoçar depois das duas horas. Por duas razões: primeiro porque não tenho fome cedo; segundo, porque daí faço uma única refeição, a tal da almojanta. Assim, além de economizar alguns trocados no bolso, ainda economizo algumas calorias diárias.
E geralmente, por almoçar tarde, nunca encontro ninguém que queira almoçar comigo. Mas nesta última sexta-feira foi diferente. Ao chegar na padoca do Seu Santos, onde costumo comer sempre, dei de cara com um grande amigo meu. Nada mais nada menos que Doctor Paulus. E eu que pensava que depois da promoção dele, ele não ia mais por os pés por ali! Acho que foi traído pelas origens.
Evidente, acabei sentando à mesa dele e assim pude desfrutar de agradável (?) companhia e dividir a cerveja.
Almoço acabado, duas cervejas consumidas e consumadas, o café e a dolorosa. Olho pra rua e, de repente, um baita pé d’água caindo. Essas tais chuvas de verão, que levam o verão inteiro pra passar.
Putz grilo, justamente agora que eu tinha que ir até ali nas proximidades do Teatro Municipal. Eu que estava na padoca bem do lado do antigo prédio do Estadão, na Martins Fontes, sem lenço nem documento, digo sem capa nem guarda-chuva e galocha. Putz, que antigo isso.
Capa de chuva, só usei na infância quando minha mãe comprou uma azul-marinho para eu ir pra escola. Parece que era moda. Toda a molecada usava aquela capa de chuva. Lembro de até jogar bola com ela no recreio do colégio nos dias que choviam. Um time inteiro de capa de chuva. Era engraçado!
Galocha, vi algumas lá em casa. Eram do meu avô e do meu pai. Êta coisa horrorosa. Nunca usei. De borracha inteiriça, tão larga que se colocava por cima dos sapatos. Era engraçado!
Guarda-chuva. Bem, esse minha mãe me forçava a levar na mala de couro da escola. É, naqueles tempos os estudantes não usavam mochila, não. Nem existiam. Era mesmo uma mala de couro, com dois feixes tipo orelha. As pastas 007 vieram bem depois e não eram pra uso escolar. Já pensou estudante agente-secreto?
Mas, sempre tive uma certa ojeriza (vixe!) por esse trio parada dura (guarda-chuva, galocha e capa de chuva). Tanto assim, que essa rebeldia dura até hoje e eu ainda reluto em sair nem ao menos com o guarda-chuva. E sempre acabo me ferrando!
Vide por exemplo essa última sexta. Lá estava eu novamente, debaixo de um toldo de casa comercial, no caso, a padoca do Seo Santos, esperando a chuva passar. E nada de passar. Só o tempo passava e o meu compromisso indo por água a baixo.
Mas vendo que não tinha jeito, o jeito foi sair dali com chuva mesmo. Daí pus em prática meus profundos conhecimentos dos meandros, desvios e acessos do centrão. Afinal, pelo menos para conhecer bem aquele pedaço, valeram os anos e anos ali vividos. Desde os tempos do Caetano (Caetano de Campos).
Então montei mentalmente todo o itinerário, procurando um caminho pelo qual eu menos me molharia. E assim foi. E deixo aqui o registro desse roteiro. Tenho a certeza que algum dia será de valia para algum dos poucos leitores (minha irmã e meu filho, por força do ofício) dos meus textos aqui no site.
Ai vai:
Atravesse ligeiro a Av. Ipiranga junto a Av. São Luiz, em frente a Biblioteca Municipal. Se beneficie das árvores dessa esquina, que lhes darão uma grande proteção da água. Esta operação deve ser feita com o semáforo fechado aos carros, minimizando a quantidade de chuva a ser tomada. Tome cuidado com os motoqueiros que cruzam a avenida sempre de surpresa, quando você menos espera. Os ônibus também não costumam respeitar os pedestres. Portanto, muito cuidado!
Ao chegar do outro lado da avenida, siga pela calçada da Rua Quirino de Andrade, bem recostado à parede. Nesse local há uma grande quantidade de prédios antigos, todos geminados, colados uns aos outros, com bom lance de marquise, que quase protege a calçada toda. Tome cuidado apenas com a grande presença de marreteiros que obrigam o transeunte a manobras de desvios. Tome cuidado também com o fluxo contrário de pessoas que, apesar de portarem guarda-chuvas, insistem em andar igualmente debaixo das marquises. Inclusive, alguns agressivamente enfiam os bicos desses guarda-chuvas nos olhos dos que andam no sentido contrário.
Ao atingir a esquina com a Rua João Amaro, atravesse o Largo da Memória em direção à escada da estação do metrô. Neste trecho você se molhará um pouco. Portanto, corra, mas tome cuidado para não escorregar no piso de mosaico português todo falhado com a ausência das pedras, ou então com a presença de alguma casca de fruta (laranja, mexerica, banana ou abacaxi), jogada pelos nobres cidadãos de nossa cidade na calçada. Cuidado também para não escorregar em algum saco plástico com resto de cola de sapateiro jogado no chão por algum menor infrator (termo usado a minha revelia, mas politicamente correto), freqüentador assíduo do pedaço.
Atingindo a escada do metrô, se enxugue um pouco e aproveite-se da comodidade da vida moderna: a escada rolante. Suba então até a Xavier de Toledo. Cuidado para não levar nenhum tranco de algum pedestre educado e apressado.
Já na reta final, essa rua te conduz protegidamente da chuva por sob as marquises dos prédios igualmente antigos e geminados, praticamente até o Teatro Municipal.
Pena a passagem subterrânea, por onde muitas vezes eu passei, da esquina da Xavier de Toledo com o Viaduto do Chá, exatamente naquela esquina em que o guarda Luizinho (vide texto aqui no site) fez sua fama, estar desativada. Assim, você poderia chegar mais enxuto ao seu destino.
Atingindo a Praça Ramos, desvie das centenas de panfleteiros presentes no local, distribuindo todo tipo de folheto, desde empréstimos para aposentados e funcionários públicos até de quiromante e desfazedor de macumba. Desvie também dos muitos homens-sanduíche ali presentes, ou tome sorrateiramente alguma daquelas capas-propaganda deles emprestada para se proteger da chuva. Quem sabe você não acabe achando o modelito simpático!
Boa Sorte!
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