No fim do mundo

Coisas que eu idealizo e trago ainda presente no meu imaginário. Os primeiros caminhos, depois as ruas de terra batida; os nomes que surgiram para demarcar os primeiros caminhos, depois as ruas que eram feitas de trilhas nos estreitos limites da cidade em meados da década de trinta, onde se instalou um dos muitos núcleos urbano primitivo de São Paulo.

E é neste espaço do tempo que me detenho, tentando reter na memória os aspectos do bairro a que hoje me reporto, extraindo do mapa cartográfico esparramado sobre a enorme mesa na sala do Arquivo Histórico de São Paulo. Sobre ela, uma carta da Câmara Municipal da década de trinta. Ali traz estampado o aspecto estreito de outrora dos limites da pequena cidade de São Paulo. A igreja da Consolação era o centro da atração urbana popular da época.

Debruço-me sobre o papel, retendo na memória os aspectos geográficos do bairro batizado como o do fim do mundo. Agora viajo no tempo e me transporto ao passado, extraindo daquele documento histórico a área do espigão das Avenidas Paulista, Avenida Doutor Arnaldo, para mais além daquele imenso e despovoado descampado no atual bairro do Sumaré.

O local começou a ser ocupado, principalmente, devido às suas características de salubridade, como pensava a medicina da época. Na região construiu-se o Hospital dos Variolosos, no cruzamento da estrada dos Pinheiros com a Estrada do Araçá, depois de uma grande epidemia que assolou São Paulo em 1878, portanto, inaugurando-o em 1880.

Um pouco à frente do Hospital do Isolamento, como ficou conhecido, abriu-se o Cemitério Municipal (Cemitério do Araçá), numa área de mais de 200 mil m² do lado direito da Avenida Municipal, por iniciativa do Conde José Vicente de Azevedo, em 1898, quando começou a ser construído o Cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento, ligado à Cúria Metropolitana de São Paulo, onde está os restos mortais de minha avó paterna Maria Magdalena Rocco, enterrada em 1905 num pequeno mausoléu de mármore importado da Itália pelo meu avô que, infelizmente foi demolido.

Na época, em 1896, a Santa Casa de Misericórdia transferiu o Asilo dos Expostos para o Pacaembu, isolando do contágio hospitalar as crianças desvalidas que ali eram recebidas, numa extensa área de 48 mil m² da Chácara de Wanderley… Aproveitando, inclusive, uma casa ali existente do José Mauricio Wanderley, possivelmente de propriedade de um dos herdeiros do padre.

O reservatório de água do Araçá foi inaugurado em 1908, e sofreu ampliações em 1924. Um incinerador de lixo funcionou entre 1924 até 1948 entre as Ruas Artur Alvim e Avenida doutor Arnaldo, culminando com a época em que houve a função sanitária da região do fim do mundo em 15 de janeiro de 1920, onde foi lançada a pedra fundamental do prédio sobre o patrocínio da fundação Nelson Rockefeller, a atual Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo pelo doutor Arnaldo Vieira de Carvalho, cuja inauguração se deu em 1931, quando também trocou o nome da Avenida Municipal para Doutor Arnaldo em homenagem ao falecimento do ilustre médico em 1920.

O bairro do Sumaré, que antes era considerado como o fim do mundo, teve a sua formação ao legado do padre pernambucano Joaquim Floriano Wanderley. Ele possuía uma fazenda na antiga sesmaria do Pacaembu, doada por Martim Afonso de Souza aos padres jesuítas, ocupando as áreas correspondentes aos atuais bairros do Pacaembu, Sumaré, e uma parte de Higienópolis. A propriedade do padre Wanderley era chamada de Sítio Wanderley, ou chácara Wanderley.

A antiga sesmaria tinha seus limites no caminho de Pinheiros (atual Rua da Consolação), Emboaçava (estrada do Araçá), depois Avenida Municipal, hoje atual Avenida Doutor Arnaldo e córrego da Água Branca (Perdizes).

Em novembro de 1891, a gleba foi dividida na sua maior parte em duas, restando ainda parcelas do terreno em nome dos herdeiros. Uma delas chamava-se Pacaembu de cima, que foi deixada ao Asilo das Meninas Órfãs Desamparadas Nossa Senhora Auxiliadora, localizada no bairro do Ipiranga. A segunda, denominada Pacaembu de baixo, foi destinada ao colégio São Miguel de Jacareí, dirigido pelo cônego José Bento de Andrade.

Com a morte por febre tifóide do padre Wanderley, em março de 1892, procedeu-se à abertura do inventário. Depois a Cia City comprou a gleba do Colégio São Miguel em 1914, abrindo o bairro do Pacaembu. Os herdeiros venderam para Victor Nothman e Martin Burchard os terrenos que lhes couberam em testamento, incorporados ao loteamento de Higienópolis, que na urbanização da área deram origem às praças Vilaboim e Buenos Aires.

Do meio da rua, olho para uma fachada. A construção da antena da Rádio Difusora de São Paulo, cujo prefixo era PRF-3, construída em 22 de dezembro de 1933, noticiada pelo jornal O Estado de São Paulo. Na sequência, dezenas de outras se ergueriam no eixo Avenida Paulista Doutor Arnaldo ao longo das décadas seguintes.

O terreno para a torre foi conseguido trocando-se ações da rádio por um lote irregular entre as Avenidas Doutor Arnaldo e Avenida Professor Alfonso Bovero, antiga Rua 19, e Rua Piracicaba, antiga Rua 18 e Rua Catalão (Rua 24). Não se podia falar em troca, quando um dos proprietários do terreno, José Rabelo da Cunha, recebeu assento no Conselho Fiscal da sociedade, tratando-se muito mais de um investimento.

A inauguração da primeira fase da sede da rádio se deu um ano depois, em 24 de novembro de 1934, às 21 horas, contando com a presença do representante do interventor do Estado, Francisco Machado de Campos. A antena tinha a capacidade de 7,5kw de potência na recepção das ondas do equipamento importado da Western Eletric, chegando a propagar suas ondas curtas para os estados do Ceará e Porto Alegre.

O primeiro programa radiofônico foi ao ar com a apresentação da orquestra conduzida pelos maestros Martinez Grau e Gabriel Migliore. A programação era de 12 horas por dia (das 11 às 23 horas). Os atuais diretores Assunção e Manfredo Costa vinham do ramo elétrico, participando da venda de aparelhos receptores, enquanto Decio tomaria conta da parte cultural do negócio. Foi ele, o compositor de uma valsa com o sugestivo nome "Luar do Sumaré".

E o bairro que a princípio parecia se localizar no fim do mundo, ficou conhecido como “Altos do Sumaré, a Cidade do Rádio”. Ao contrário da diocese de Taubaté, José Vicente de Azevedo esperou mais dez anos para vender a área de 700 mil m² correspondente ao Sumaré. A venda foi feita para a Sociedade Paulista de Terrenos e Construções Sumaré Ltda.

O nome do bairro, Sumaré, foi escolhido por um dos sócios, José Rebelo da Cunha, que tinha como associados no empreendimento Paulo Rodrigues Alves, Joaquim Macedo Galvão e Zenóbia Alvarenga Monteiro Soares (outras fontes, como uma matéria do Diário Popular de 3 de junho de 1968, citam ainda Canuto Waldemar Nogueira Ortiz e Cláudio Monteiro Soares, possivelmente com parentesco com Zenóbia).

Desconhecemos os acertos estatutários da empresa. Os lotes regulares tinham 12 m de frente por 50 de fundo, situando-se em ruas arborizadas. No total eram 44 quadras com 858 lotes.

José Vicente de Azevedo, membro da Irmandade do Rosário, reservou uma área triangular no limite da Avenida Municipal com a estrada para o alto da Lapa (atual Avenida Heitor Penteado), à construção de uma igreja dedicada à Nossa Senhora do Rosário, que tinha sido demolida na Praça Antonio Prado, quando da retificação das ruas do centro da cidade.

O conde, no entanto, conheceu o franciscano João Luís Bordeaux, superior geral da Ordem no Brasil, nas comemorações dos 25 anos da Missão Franciscana. A partir desse encontro, o destino da igreja foi outro, lançando, em 1935, a pedra fundamental do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, que foi entregue oficialmente em 29 de junho de 1950, dando-se a consagração da igreja em 21 de abril de 1953.

O santuário de Fátima transformou-se, com o tempo, em um dos pólos de atração do bairro. Os lotes começaram a ser vendidos em 1928 ao custo de Rs 4:000$000 (quatro contos de réis). Previa-se, dessa forma, que o loteamento totalmente vendido renderia aos incorporadores a soma de mais de Rs 3.000:000$000 (três mil contos de réis). Porém, a crise de 1929 teve um efeito nefasto sobre o empreendimento.

Nos anos seguintes, as vendas se estagnaram. Em 1936, Maurício e Jarbas Karman, da Sociedade Urbanizadora Brasileira, assumiram o negócio. Para incentivar novas vendas, eles cederam uma área para uma empresa de ônibus, já que o acesso ao Sumaré parava no cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento com o bonde que saía do Parque do Anhangabaú. A garagem teria funcionado primeiramente na Avenida Dr. Arnaldo, em 1938, mudando-se depois para a Avenida Prof. Afonso Bovero na altura do numero 700, hoje demolida.

Sumaré que teve algumas de suas ruas batizadas com nomes estrangeiros, como exemplo Rua Berlim, depois padre Cursino, modificada devido ao conflito da Segunda Guerra Mundial para atual Rua Apinajés; outra: Rua Nova York, com uma multiplicidade de nome, com uma existente no bairro do Brooklin, o que vinha trazendo confusão às pessoas, hoje modificada para Rua Havaí.

Enfim, essa é a história resumida da criação e da formação deste eclético bairro da cidade de São Paulo.

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