N.E.T.O.S. – Ezequiel Ramos

Eu às vezes fico pensando o que passa na mente de uma pessoa de quase 60 anos para escrever suas memórias e mostra-las para muitos, aqui no SPMC. Contar como foi a sua adolescência, juventude e inicio da maturidade, já que foi comum como tantas e em nada tão surpreendente que merecesse ser contada. Mas muitos já o fazem e é delicioso ler… Por que não mais um?

O simples fato de deixar isso escrito tira de dentro do peito uma sensação gostosa, principalmente por eu ser um amador. É como um dever cumprido, já que está "teclando" a sua vida, ali na sua frente, em umas duas centenas de palavras e registrando um pequeno pedaço da própria vida, por menor que seja.

Tive passagens, não pela policia, mas na adolescência, por situações “que causaram" (como dizem os jovens de hoje). Era o primeiro semestre de 1968. O Ovo (Flávio) e eu éramos dois quase facínoras. Fazíamos muito só pelo prazer de sermos lembrados, mas o Flávio garante que não era só para sermos lembrados, mas para rirmos e criar algum motivo para estarmos juntos também nos finais de semana, já que durante a mesma era fatal, tínhamos o Firmino.

Era meio que uma auto-estima, só que do avesso, porque nesse meio tinham também as nossas "aprontações" (vide Dona Concheta do Firmino e Outra do Firmino aqui no SPMC).

Cismamos certa vez que precisávamos de grana para alguma coisa que nos desse mais liberdade e a nossa sociedade deveria começar com algo e com um apelo que só nós achávamos que conseguiríamos: pela nossa amizade e popularidade.

Como carro próprio na época era sinônimo de liberdade e sucesso entre as garotas, era esse o caminho… A maré de sorte estava muito boa, pois apareciam as meninas por causa dessa popularidade, mas não éramos lá uma combinação de Adonis com Terence Stamp (galãs da época) e sim uma coisa mais tupiniquim. Fato é que de alguma forma éramos conhecidos e reconhecidos.

Tínhamos como colega e amigo o Abreu (Nelson) que era o galã da turma (que teve a infeliz sorte de estudar um ano – e apenas aquele ano – no Firmino, indo cair justamente na nossa classe).

Ele fazia um sucesso danado com as meninas, já que era o único moço “bonito” da turma, dizia o Flávio. Ele realmente era boa pinta e tinha barba cerrada, que lhe dava um ar de mais velho, embora tivesse os seus 17/18 anos, igual a nós. Ele tinha uma bela namorada, a Neide, que era a morena mais bonita do curso clássico.

Tínhamos também em nossa turma o Terrinha e o Solé, que eram da quarta série "A" (a nossa era a quarta "B"). Todos nós éramos uns verdadeiros “duros de grana”, mas ricos em idéias e pilantragens.

O Terrinha (Pedro) com a sua habilidade extrema de desenhar e um humor incrível de tiradas divertidíssimas era um elemento importante no grupo e o Solé (Sérgio), que completava o quinteto, e apesar da sua baixa estatura era o cara que mais acompanhava-nos em nossas aventuras. Não só pelo fato da companhia, mas pelo fato dele incrementar as ideias, para o lado divertido da coisa.

Pronto: o quinteto estava formado, só que precisávamos de um lugar para por em prática nosso "empreendimento": os bailinhos de fim de semana, com temas diversos, já que os bailinhos de garagem estavam na moda.

Claro que cuba libre, gin tônica, hi-fi faziam parte do cardápio, assim como a luz estroboscópica, além da luz negra. Tinham que existir para criar o clima da época…

Mas onde faríamos os nossos bailes? Eu morava num sobrado na Rua dos Trilhos e no quintal não ia rolar, o Terra e o Solé também – um perto do ARCA-Clube da Antártica e outro numa travessa da Celso Garcia. Já o Abreu morava em uma Rua próxima à porteira da Rua da Mooca, que só tinha um pequeno jardim na frente. Só sobrou a casa do Ovo! A garagem era enorme, cabiam com segurança umas três “Vemaguetes”, uma atrás da outra.

Só restavam o Seu Flávio e a Dona Dinorah deixarem. E até que eles foram tolerantes.
– "OK, vamos fazer os convites em cartolina, bolar um carimbo dizendo dia, hora e o valor" disse o Ovo.
Como vamos chamar? E aí saiu o N.E.T.O.S – iniciais de Nelson, Eduardo, Terrinha, Ovo e Solé. Isso, hoje, seria muito ridículo!

Ficou combinado que o baile seria na Rua Ezequiel Ramos, 555 , casa do Ovo. E saímos vendendo os convites. Até que nos demos bem, pois cada um dos empreendedores ficou com a incumbência de vender uma cota.

Das coisas que bolamos para o "evento" a mais engraçada foi a solução que encontramos pra fazer a luz estroboscópica. Ela foi feita a partir de um toca-discos antigo que era herança do Sr. Ézio, meu pai, com prato de metal sobre o qual cruzamos umas fitas crepe e energizamos fazendo com que a lâmpada acendesse e apagasse por meio de um contato externo.

Dá para lembrar ainda o “tchac, tchac, tchac, tchac” que fazia. Era o maior barulho! E com uma lâmpada comum, dessas de 100 velas, vidro azul e transparente tirado de um dos lustres da sala da casa do Flávio. Lembrando o fato, o Flávio me disse que este apetrecho ainda se encontra no "quartão" da casa da sua mãe, lá no mesmo endereço, a não ser que a irmã dele tenha executado algum tipo de faxina que ele não saiba.

O Ovo, que tinha muita habilidade com eletricidade, se incumbiu de tudo funcionar direitinho. E funcionou a nossa "luz estroboscópica".

O tema foi de cara "fantasia livre escolha". Encheu de gente! Apareceu fantasia de tudo quanto foi jeito: Militar, Beatles, Mexicano, Irmão Metralha, de espinha (a do Terrinha) além das tradicionais de beduíno, havaiana, etc. Teve um lá que apareceu de padre e outro de Flintstone…

Pedi para minha mãe pegar um saco de estopa, cortá-lo em volta do pescoço com dois buracos para os braços e estava pronto meu colete hippie. A primeira vez que vesti, aquilo me pinicou todinho com aquelas fibras de sisal grosso, então minha mãe então forrou o colete pra eu poder aguentar. Pintei-o de todas as formas com frases alusivas do tipo “Make Love not war” e outras bobagens do gênero, o que serviu de inspiração para a minha namorada na época se fantasiar de hippie também… Ah! Usei também, para me caracterizar melhor, um colar de dentes de cavalo, daqueles que eram vendidos em casa de artigos de umbanda – minha mãe ainda lembra que passou uma vergonha danada por ter que comprar aquele adorno… Ela reclama disso até hoje.

Os pais do Ovo nem desceram pra ver a bagunça que aquela garagem estava ficando, enquanto estávamos a decorando para o baile.

E a festa rolou. O Ovo fala até hoje que nós éramos “donos” da festa, muitas meninas, gente que nunca tínhamos visto, muita Cuba Libre, Gin Tônica, Hifi, Martini etc., etc., e "de graça", pois o ingresso cobria isso – ou quase tudo.

Sobraram muitas coisas da festa e o Flávio lembra que do Gin que sobrou… Nós dois tomamos os ¾ restantes e acabamos indo para uma festa Junina do Juventus. Até hoje o Ovo não consegue sentir o cheiro de alguns perfumes semelhantes que lhe dá ânsia! Mas à meia noite acabou: a coca-cola, a crush, o run, a vodka, a luz e a festa!

O seu Flávio mandou a ordem:
– "Quero dormir!" E ai daquele que se atrevesse contrariá-lo.

Nessa hora o Terrinha teve a "brilhante" idéia de pedir para o seu Flávio deixar a festa rolar mais um pouco, chamando-o de "seu Ovo". Era tudo que não podia acontecer! Seu Flávio já não gostava do apelido que tinham colocado no filho (uma brincadeira do time de basquete do Juventus onde ele jogava) e ainda por cima chamá-lo de "seu Ovo" ,foi a gota d'água para que tudo acabasse ali, naquela hora!

Ele era um homem alto, de pele morena, sobrancelhas grossas, bigodão, de olhar marcante e, ainda por cima, advogado.
– “Bem pessoal, acabou o alvará… Vamos indo… Obrigado… Mês que vem tem mais, etc., etc., etc."

Sobrou para o meu amigo e sua irmã, a Beth, a tarefa de dar um jeito naquela garagem.
Apesar desse baile ter sido um sucesso, na vez seguinte conseguimos vender uma dezena de convites, pois nossas notas não estavam lá essas coisas e tínhamos o segundo semestre pra recuperar. E ali terminou o nosso sonho de ter um carro.

Entre receita e despesa sobraram uns míseros trocados – nem sei que moeda era na época – que não dariam nem pra comprar uma garrafa de Coca de 1 litro.

Esta estória foi escrita por mim com a ajuda do Flávio (Ovo) Figueiredo de Andrade, meu eterno amigo.

E-mail: [email protected]