Desde pequena eu ia ao dentista sem medo. Aliás, o Dr. Hélio era amigo da família. Homem distinto, parecia meu pai. Honesto, respeitador, acreditava nos outros com enorme naturalidade e leveza.
Quando pequena, eu me sentava naquela cadeira alta e ele ia pedalando várias vezes até que eu ficasse na altura conveniente para um bom trabalho. Ele fazia tudo sozinho. Não havia ajudante para fazer as massas, organizar o espaço, nada disso.
E ele falava também, baixinho, educadamente. Quando ia começar os procedimentos, dizia: "Verinha, abra beeeem a boquinha". E eu não tinha medo.
O pior de tudo era que o rádio estava sempre ligado. Coisa triste o rádio ligado! Nunca suportei, mas o duro mesmo era quando chegava a Hora do Brasil. Eu ficava indignada com o fato de ele não desligar. Era na época da ditadura e, para mim, o rádio deveria ser desligado rapidamente, de forma frenética, indiscutível. Imagina só, em plena ditadura e alguém, nas condições normais de temperatura e pressão, ouvir a Hora do Brasil… Só podia ser o Dr. Hélio, que até acreditava que aquela galera do poder era honesta…
Uma vez ele viajou com a esposa e o único filho para os Estados Unidos. Coisa rara na época, anos 60. Ele nos emprestou uma quantidade enorme de fotos e ficamos, em casa, apreciando aquela viagem fantástica – pelo menos para nós, que sabíamos que era impossível pisar em solo tão distante.
Um dia, enquanto eu aguardava o tratamento da minha irmãzinha, não sei por que cargas d'água eu disse que não iria me casar. Eu tinha doze anos. Ele parou de preparar a massa da restauração, olhou bem para mim e perguntou, estarrecido: "Você não vai se casar?".
Fiquei tão assustada, me imaginando monstruosa, escabrosa, herege, passível de julgamento no Tribunal da Inquisição, do eterno fogo do inferno, tamanho era o meu pecado. Emendei e respondi rapidamente: "Vou sim!". E o assunto foi encerrado aí.
Passados outros doze anos ele foi ao meu casamento e me levou uma bandeja de aço inoxidável, que tenho guardada até hoje.
Guardei muito respeito pelo Dr. Hélio Nogueira de Sá, que atendia na Rua Robertson, no Cambuci. Homem íntegro, ético e prestativo. E que tem a cara de São Paulo dos anos 60.
e-mail do autor: [email protected]