A Era Disco

Puxa vida! A Era Disco foi d+! Foi tão assim que até hoje algumas discotecas, ou danceterias continuam tocando o gênero. E a moçada continua curtindo. Aliás, mudam-se os nomes mas a base é a mesma. O que já se chamou de salão de dança hoje é "lounge". Bonito, né! E dá pra cobrar bem mais caro a entrada. Mas a coisa na verdade não é igual. Acho que nunca teve algo parecido com a Era Disco.

Eram os anos de repressão, os anos de chumbo. Nada podia em termos de manifestação cultural com conotação política. E toda manifestação cultural tinha conotação política. Então, baixa o porrete na moçada. A censura era rígida e estúpida. Às vezes algumas coisas muito sutis e inteligentes passavam despercebido. Isso exigia muito jogo de cintura dos artistas. Nos colocaram uma mordaça, nos sujeitaram a uma condição de acefalia total. Então pra nós que dançávamos com a ditadura militar, só nos restava cair na dança.

E Sampa acabou tendo várias casas de dança Disco. Verdadeiros templos, as discotecas. Papagaio’s, Hypopótamos, Banana’s Power, Ta Matete, Up and Down, o Circulo Militar e a sua domingueira. Na ZL tinha a Toco, famosa na região. Muita luz negra, muito globo espelhado, muita fumaça de gelo seco, muito spot e principalmente muita caixa de som, com muita potência. Som alto, naquela batida cadenciada, no ritmo do coração acelerado, bem característico. Precisávamos acelerar nosso ritmo. Não tínhamos mais tempo a perder. Precisávamos viver nos embalos de sábado à noite, e nos domingos também. O cigarro era de tabaco, e só de tabaco. A adrenalina era natural. Não tinha Red Bull nem outros balls. Não rolava essa droga de droga toda. E a gente curtia muito mais, sem risco de uma parada cardíaca. Overdose? Nada que na veia não resolvesse uma boa glicose, socorrendo quem tivesse se excedido na cuba-libre.

Lembra do John Travolta? E dá pra esquecer? Era um dançarino que virou ator-dançarino. Só dançava, não interpretava. Ou interpretava dançando. E a Olivia Newton-John, a namoradinha que a gente queria. Que dupla! Uma versão Disco do Fred Astaire e da Ginger Rogers. Aquele filme dele (Nos embalos…) foi o grande lançamento mundial da Era Disco. Foi a síntese do movimento. Depois veio "Grease – nos tempos da brilhantina", daí foi a consagração total da Era Disco.

E nessa febre toda a Globo não perdeu a viagem. Como sempre, faturou algum em cima. Algum não, muito. Tratou logo de aproveitar o sucesso emergente da Sonia Braga, que deixava de ser a Gabriela, cor de canela, do Amado, pra virar uma dançarina amada da Era Disco, naquela novela Dancing Days. Êta nome porreta!. Dias dançantes! E o sucesso foi tanto, que surgiram as maiores "promoteurs" das discotecas brasileiras: As Frenéticas (by Nelson Motta)…..abra suas asas, solte suas feras, caia na gandaia, entre nessa festa…. Era o hino da Era Disco Brasil!!!

Mas eu queria mesmo era ser John Travolta. Cabelo empastado com muito gel, como o dele. Eu queria dançar como ele. E o que ele dançava! Queria me vestir como ele. Calça cintura alta (na época a barrica inexistente permitia), bem cinturada e boca larga, bem larga, que acompanhasse os movimentos sincopados da dança. A camisa de manga comprida tinha que ser brilhante, de preferência de cetim preto, com os três botões de cima abertos, mostrando algum medalhão metálico no peito.

Lembro que mandei fazer uma calça boca larga. Tinha que mandar fazer, não existia pronta. E lógico, só pra usar em baile, nas Discos. Era roxa ou lilás, há controvérsias. Algum tom intermediário. Dava um efeito todo especial na luz negra. Parecia uma vestimenta interplanetária. Só dava a calça na pista. Acho que de tanto ir aos bailes com ela, a calça já dançava sozinha. Devia até já saber a coreografia e a seqüência das músicas de cada pista de cada danceteria.

Sair de casa para os bailes, à noite, tudo bem. Estava escuro mesmo e quase ninguém via. Corria o risco de ser confundido com algum ET ou coisa pior, vai saber… O problema era voltar de ônibus, muitas vezes, já com o dia raiando ou mesmo já de manhã no domingo. Acabava cruzando com as vizinhas carolas, amigas da minha mãe, que quase me excomungavam de me ver com aquela calça daquela cor e bem agarrada na cintura. Elas indo pra igreja, eu voltando das catedrais da dança, indo pra casa pra dormir. Acho que se benziam quando me viam. Na cabeça delas eu devia ser a incorporação do Demo. Eu que me achava o Demo da Discotecas!

Salve Gloria Gaynor, Donna Summer, KC & Sunshine Band, Bee Gees, Village People (YMCA e Macho Man), Gibson Brothers, Blondie, Kool & Gang, The Buggies, Chic, ABBA, Sylvester, The Emotions, Celi Bee & The Buzzy Bunch, George McCrae, Hot Chocolate, Debbie Jaccobs, Weather Girls (It’s rainning man), The Destinations, Claudia Barry, Voyage, Lady Zu (A noite vai chegar), As Frenéticas e Big Fraze (meu cunhado, grande músico da Era Disco nas Domingueiras do Círculo).

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