Narradores e comentaristas do rádio esportivo

Nicolau Tuma foi o primeiro narrador do rádio esportivo brasileiro. Gagliano Neto foi o único a transmitir a Copa do Mundo de 1938. São pioneiros na arte de "irradiar" jogos de futebol.

Eu comecei realmente a me ligar em futebol a partir de Pedro Luiz, lá pelos anos cinquenta. Locutor da Rádio Panamericana (mais tarde Jovem Pan), era quase uma unanimidade. Narrava com absoluta precisão, com incrível visão do lance e de todos os jogadores envolvidos no mesmo, antecipando a jogada. Certa vez um dos componentes do conjunto Os Titulares do Ritmo – todos cegos – afirmou que ouvia Pedro Luiz porque era o único que lhe dava a sensação de "ver" o jogo.

Seu "reserva" era Helio Ansaldo, de estilo mais comedido e com uma voz muito agradável.

Os repórteres de campo eram os competentíssimos Salem Júnior e Otavio Muniz. No intervalo o "pau comia" com Mario Moraes. Irônico, irreverente, não poupava os "pernas de pau", mas tinha grande respeito pelos verdadeiros craques, que sabiam tratar a bola com carinho e elegância. A estes tudo era perdoado. Ademir da Guia, Dino Sani, Roberto Belangero, Claudio Cristovão Pinho, Jair da Rosa Pinto, Pedro Rocha e outros podiam errar à vontade que não eram molestados pelo severo comentarista. Fato interessante: às vezes o torcedor ouvia o locutor A ou B, mas na hora do comentário pulava o dial para o Mario, prova de seu prestígio.

Depois de Pedro Luiz, veio Joseval Peixoto, bom locutor, mas sem o mesmo carisma não conseguiu manter o nível de audiência.

O "Diamante Negro" Leônidas da Silva militou muitos anos como comentarista: calmo, tranquilo, jamais perdia a serenidade.

Na Rádio Tupi, Aurélio Campos era o dono da bola. Não era espetacular, mas suas explosões de mau humor eram conhecidas, completadas pelo ranzinza Geraldo Bretas, voz aguda e irritante, não salvava a pele de ninguém. Suas opiniões eram contundentes e corajosas. Para equilibrar a Tupi, contava também com o íntegro e extremamente ético Ary Silva – "torcida amiga, boa tarde.". O Coronel Cunegundes e a "moça de olhos amendoados" eram personagens criados por ele em sua coluna no Diário de São Paulo.

Quando Aurelio se aposentou, a bola foi passada para Haroldo Fernandes, um baita narrador. Dono de uma linguagem escorreita, equilibrado, mas que não se continha diante de uma pixotada, taxando-a de "ridícula, grotesca e estapafúrdia". Não juro, mas parece-me que Juarez Soares e Ely Coimbra ou Carmona eram seus auxiliares. Aliás, Juarez e o saudoso Ely rodaram um bocado. Milton Peruzzi e Ávila Machado também batiam bola na Tupi-Difusora.

Na Rádio Bandeirantes o titular era Edson Leite. Voz possante, dicção perfeita, carregava nos "erres", mas muito burocrático; faltava-lhe bom humor, improvisação. Aos poucos foi deixando a locução para se envolver na área administrativa da emissora, sendo substituído paulatinamente por Fiori Gigliotti, que com seus arroubos líricos e românticos reinou durante muitos anos. "Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo". "Bola com Zito, o moço que veio de Roseira", e assim por diante. Fiori contava com ótimos repórteres; Chico de Assis, o "olho vivo" Roberto Silva e Ethel Rodrigues, que se transformou em juiz. Seu comentarista foi por longo tempo o corretíssimo Mauro Pinheiro. Sóbrio, elegante e profundo conhecedor do futebol.

Poderia lembrar Geraldo José de Almeida na Rádio Record, cuja contribuição maior foi para a televisão, onde foi brilhante. Era o rei dos apelidos. "Garoto do Parque", "Minuano", "Peito de Aço" etc. foram algumas de suas "invenções". Exaltava os patrocinadores com frases de efeito. "Fio de Ouro, o cigarro que agrada até a última tragada" ou "Cerveja preta é Mãe Preta.". Raul Tabajara, Luiz Noriega, Walter Abraão, Sílvio Luiz e outros foram homens de televisão e são apenas citados sem maiores comentários.

Por esse tempo começava a surgir um locutor diferente, cheio de bossas, novidades e bordões que fazia a alegria da galera e em pouco tempo caiu no gosto da torcida. "É ripa na chulipa", "Pimba na gorduchinha", "É fogo no boné do guarda". Seu nome: Osmar Santos – "O Pai da Matéria.". Durante anos foi verdadeira coqueluche na Jovem Pan e depois na Globo paulista, até que trágico acidente o afastou para sempre do rádio, pois perdera sua principal ferramenta de trabalho: a voz. Alegre, competente, descontraído e espirituoso, foi uma grande perda para a radiofonia esportiva. Foi substituído pelo irmão Oscar Ulysses e Oswaldo Maciel. Carlos Aymard (voz parecidíssima com a de Mario Moraes) e Loureiro Júnior se revezavam nos comentários; Roberto Carmona e Henrique Guilherme, repórteres de campo.

Daí para frente, com as transmissões ao vivo pela televisão, eu praticamente não ouvi mais os vibrantes e criativos locutores de rádio que, pelo seu entusiasmo, sabiam como ninguém transformar qualquer "pelada" num jogo repleto de emoções e arrebatamento. De dar infarto!

Agora contentemo-nos com Galvão Bueno, porque "correr atrás do prejuízo" é inútil, torcedor amigo, e eu já estou nos "descontos" concedidos pelo Senhor, o Juiz dos juízes.

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