Quem fez São Paulo minha cidade?

"Non ducor, duco" é o seu lema, "Não sou conduzida, conduzo". A 19ª cidade mais rica do mundo talvez tenha na frase "paulistarum terra mater", gravada no emblema do capuz dos primeiros fuscas, uma significação mais popular.

Quase vinte milhões de pessoas e 60% do PIB estadual daqui provêm. Quando fundada não tinha lá muita importância, a não ser como entreposto. Com as indústrias virou potência, que hoje foi trocada pelas prestações de serviços. Mas surge a questão: "Quem construiu esta metrópole?".

Temos aqui o maior contingente de italianos, japoneses, espanhóis e libaneses fora de seus países; só para medir, uns 60% da população tem etnia de origem italiana e uns 28% portuguesa. A migração do nordeste também é responsável pelo maior número de nordestinos, fora de sua região. Minha avó materna, D. Zezé, viúva aos 36 anos, veio em 42 de Bariri, interior de São Paulo, com os cinco filhos, com idades entre nove e quinze anos. O interior tinha escolas, mas só iam até o 1º grau e não havia vagas para todos. Além disso, não havia emprego. A perspectiva de ficar na dependência de outras pessoas da família e ainda ter o futuro dos filhos comprometidos levou minha avó a seguir uma receita de outras famílias: buscar o local das oportunidades, a capital paulista.

Para sobreviver, não havia muito a fazer, alugar uma casa grande em local central e montar uma pensão para a avalanche de migrantes que chegavam procurando um rumo em suas vidas. Nos fundos da casa da Rua Vitorino Carmilo e no porão, foram alugadas vagas para todo tipo de trabalhadores, artesões, pedreiros. Alguns tomavam refeições ali. Outros pagavam pela lavagem e engomação de suas roupas.

D. Maria José, tratada por todos como D. Zezé, foi a gigante incansável que coordenava aquele local, limpando, cozinhando, lavando e passando roupas e sem descuidar dos cinco filhos que iam se colocando a trabalhar e a estudar. O mais velho de quinze anos fazia entregas; uma filha foi trabalhar numa fábrica de camisas no Cambuci, e a vida ia seguindo com portas se abrindo e tudo amparado na vontade ferrenha e no trabalho colossal daquela mulher valorosa na bondade, na fé e na humildade. Natural de Iacanga, SP, passou sua infância na fazenda que seu pai administrava para um dentista de Jahú. Escrevi a grafia daquele tempo para a cidade e para o peixe.

Na mesma rua de São Paulo em que foi morar, tinha a proximidade e o apoio do irmão Joaquim Vilela, que trabalhava no Parque da Água Branca.

Outra irmã veio morar naquela mesma rua, e isso se tornou para aqueles vindos do interior uma forma de ficarem próximos e se protegerem da grande cidade. Nas pensões também moravam estrangeiros e a barafunda de falares e culturas tornavam aquelas casas um microcosmo do que é hoje a nossa megalópole multicultural e querida Sampa.

Auguri a mia città. Adesso basta! Fai la finita.

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