Narciso Vernizzi

Narciso Vernizzi foi o criador do plantão esportivo do rádio brasileiro. Começou aqui em São Paulo, no final dos anos 1940, na rádio Panamericana, na época a emissora dos esportes.<br>A equipe de esportes tinha Pedro Luis e Mario Moraes como titulares das transmissões (como locutor e comentarista), e outros secundários locutores, como Nelson Spinelli, Darcy Reis, Raul Tabajara e Helio Ansaldo, que se revezavam em fazer também as reportagens de campo. <br>Já Octavio Munis era somente repórter de campo. Quando muito transmitia as cobranças de escanteio, devolvendo a palavra ao locutor. No estúdio de plantão estava Narciso Vernizzi, que dava todos os demais resultados da rodada. Começava ai o plantão esportivo do rádio. Após o término dos jogos ele gravava o jogo que havia sido transmitido. Depois vinha o programa “Palhinha Filmando a Rodada” e a resenha do esporte durante o programa, ouvia-se o tilintar das teclas da máquina de datilografia. Era o momento em que os que trabalhavam no plantão registravam as súmulas dos jogos, que tinham sido realizados naquele domingo, formando um dos melhores arquivos do rádio. Infelizmente muitas fitas foram extraviadas quando do incêndio de 1966, que atingiu o prédio da Avenida Miruna.<br>Narciso era um radialista eclético, fazia vários trabalhos, não lidava exclusivamente com futebol. Quando Wilson Fittipaldi (pai) fazia os programas de automobilismo ainda nos anos 1960, ao meio dia, em que falava de vários pilotos famosos na época como Jim Clark, Narciso estava na retaguarda, mostrando que realmente era a emissora dos esportes. Nos anos 1970, quando já tínhamos um brasileiro (Emerson) disputando o título mundial, ele estava sempre atento a auxiliar o velho “Barão” que transmitia as corridas. Um dia fui visitá-lo (1969) já na emissora como Jovem Pan, Randal Juliano me disse que dificilmente eu o veria, pois ele estava às voltas com a sintonização das ondas curtas para a transmissão de uma corrida de Fórmula 1 na Alemanha, nem se cogitava uma emissora de rádio transmitir ou noticiar os resultados, o que veio a acontecer depois que Emerson Fittipaldi estava em condições de ser campeão em 1972. Narciso praticamente morava na rádio Panamericana – Jovem Pan. Certa vez numa entrevista ele elogiou sua esposa, pela paciência que tinha por saber que a vida de um radialista era mais de ficar no trabalho do que em casa.<br>Em 1970 quando da transmissão da Copa do Mundo daquele ano, as emissoras de rádio Bandeirantes, Jovem Pan e Nacional resolveram fazer um pool (transmissão conjunta) dos jogos da Copa, revezando seus locutores: Fiori Gigliotti, Pedro Luis e Joseval Peixoto e Flavio Araújo, e seus repórteres: Roberto Silva e Geraldo Blota.<br>Num domingo estavam reunidos no estúdio da rádio Bandeirantes os representantes dos plantões esportivos das respectivas emissoras, Alexandre Santos da rádio Bandeirantes, seu irmão Silvio Filho da rádio Nacional e Narciso Vernizzi da rádio Jovem Pan.<br>Alexandre Santos, emocionado por estar ao lado de Narciso Vernizzi, disse a seu irmão:<br>Mano, esse aqui é o pai do plantão esportivo, muito respeito, ein! <br>Mesmo trabalhando em emissoras diferentes, Narciso e eu tínhamos uma troca de informações, a partir de 1970 quando a loteria esportiva virou uma febre nacional o serviço nos plantões esportivos triplicou, e as comunicações eram precárias, com pedidos de linha pelo 101, que nunca vinha na hora, pela companhia telefônica, que mais tarde seria a TELESP. Então um recorria ao outro, Narciso era sempre aquele gentil colaborador. Um fã incondicional do futebol argentino. Que eu saiba era o único que divulgava os resultados do futebol portenho. Em caso de necessidade de alguma notícia sobre automobilismo, era com ele mesmo. Dificilmente ficávamos sem a notícia correta. “A gente enchia muito o saco dele”.<br>Narciso era muito atencioso com as pessoas que o procuravam. Em 1970 ele teve um problema de saúde. Quando estava melhor, fui à Avenida Miruna visitá-lo, aí ele já tinha um trabalho paralelo ao do plantão esportivo. Era o trabalho de metereologista, que já tinha iniciado anos antes. Mais tarde foi cognominado como “O homem do tempo”, sendo o mais respeitado homem em metereologia. Disse-me ele que um dia ouviu numa emissora que o tempo estava ruim e que mais tarde estaria pior.<br>Verificou em todas suas fontes que a notícia não correspondia à verdade.<br>Entrou num momento em que não era hora de falar sobre o tempo, dizendo como estava o tempo e como estaria mais tarde, sem, contudo, dizer que tal rádio havia anunciado o contrário. Narciso era muito ético.<br>Depois de percorrermos várias partes da Jovem Pan, levou-me ao telhado da rádio e mostrou todo o aparelhamento que lá estava. <br>Era um aparelhamento primitivo, com formas interessantes de colher a situação de como ficaria o tempo nas horas posteriores. E foi falando que não fazia aquilo assim, sem algum conhecimento. Disse que o doutor Paulo Machado de Carvalho o mandou para os Estados Unidos, onde fez um curso de dois anos na NASA. Sendo assim ele estava em condições de fazer um trabalho que vinha sendo reconhecido pelo povo ouvinte.<br>Ele nos deixou em junho de 2005, aos 86 anos, muito bem vividos, em prol de sua família e do rádio.<br>Narciso nos faz muita falta. É o tipo de pessoa que gostaríamos que fosse eterno em vida.<br><br>e-mail do autor: [email protected]