E, então, eu entrei na USP. Antes, eu ficava horas a fio estudando, me dedicando, lendo o máximo possível, jamais matando uma única aula. Eu sentia o peso do compromisso com a sobrevivência. Entrar numa faculdade particular? Nem pensar! Era uma questão de responsabilidade com a família.
As vacas estavam tão magras naquele tempo, tão caquéticas, e explorar o pai, sempre tão doente, seria uma infâmia. Então, eu assumia a minha parte, como filha e como estudante. Mas era tanta a minha dificuldade de aprendizado que, posso dizer que, para mim, a superação seria uma questão de honra. Superação tinha tudo a ver com o que eu haveria de passar pela vida afora. Então, eu me preparava avidamente e não me dava o direito à preguiça.
E, então, saiu a lista do vestibular. Primeira chamada; estava o meu nome na lista dos aprovados. Fui para casa num estado de êxtase absoluto, com um brilho que eu jamais pensei em ter. Eu tinha vontade de gritar, mas gritar muito alto, a plenos pulmões, para que o mundo ouvisse: "Eu superei, eu consegui! Agora vou dar conta da minha vida, arrumar um emprego, não depender mais de ninguém, poder contribuir para o funcionamento da casa. Ser gente!". Eu tinha até a musculatura enrijecida. Estava alucinada, fora de controle. Eu havia conseguido!
Fiquei pensando no que fazer, em como arrumar o meu emocional e, obviamente, um emprego. Ainda faltaria um mês para que as aulas começassem. Eu não sabia nada de como seria o curso, quais os procedimentos para o ingresso numa vida acadêmica. Eu era absolutamente ignorante em relação ao ser universitária. Eu só sabia que eu havia superado e, naquela situação, isso já bastava.
Já com as aulas em andamento, num dia de folga, me deu um “clic” e perguntei rapidamente para a minha avó:
– Vó, vamos à USP?
Na hora, com um brilho no olhar muito intenso, deu uma batida na própria perna e disse:
– Vamos!
Fomos à garagem do prédio, entramos no nosso fusca vermelho 67 e lá fomos nós. Primeiro pela Paulista, descemos a Rebouças rumo à Cidade Universitária.
Apresentei os prédios, os jardins, a minha faculdade de História, as engenharias, a escola de comunicações… Enfim, eu apresentei uma universidade à minha avó que, mesmo na época, já enxergando muito pouco, conseguiu ver um espaço riquíssimo de possibilidades. Ela se sentiu verdadeiramente feliz, radiante, num outro mundo, podendo perceber o quanto os netos estariam em condições de irem à frente, construírem novos projetos, com melhores condições de vida, sem o sufoco passado tempos atrás, nos seus tempos de tarefas tão árduas e tão pouco compensadoras nas Minas Gerais.
Tudo seria uma questão de esforço intelectual e pessoal. Impossível para ela me imaginar em grandes dificuldades no futuro. Afinal, eu estava numa universidade, a mais concorrida do país! Era estudar, trabalhar e pronto! A vida estaria pronta! Como a minha avozinha viveu intensamente aquele momento! Foi tudo tão rápido e mágico! Era como se conseguisse enxergar um novo tempo a alguns quilômetros de casa e ela depositava muita confiança nos meus estudos.
Impossível resgatar as emoções daquela tarde de 1977. Mas eu sei que a vó guardou naquelas retinas já tão desgastadas a imagem de que o mundo havia mudado para muito melhor nos suas já três décadas de São Paulo. Era possível caminhar, fazer profissão, não depender de ninguém para a sobrevivência. Ter identidade, autonomia e esperança.
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