Quando saímos de mudança da Rua Dom Duarte Leopoldo para a Albuquerque Maranhão, em 1967, a situação foi extraordinária. Era um doce dia de sol, íamos a pé: a minha avó, a minha irmãzinha, então com três anos de idade, e eu, com nove. Era como se estivéssemos crescendo, evoluindo, saindo de um apartamento alugado, de fundo, para um sobrado. O sobrado era nosso! O meu pai havia comprado, com um largo sorriso, com ar de vitorioso. Minha avó dizia que a minha mãe deixaria a casa “um brinco”. Era um sobrado simples, sem garagem, geminado. Eram dois conjuntos de cinco casas, separados no meio por uma vila extremamente simpática. Antes da mudança, o pintor deu um jeito, pintou as portas a óleo, de cor cinza. Lá fora existiam duas colunas. As janelas, mesmo a da sala, eram de veneziana, mas era a nossa casa, o nosso espaço, pela primeira vez.
Uma vez por mês o antigo proprietário, senhor de idade, tocava a campainha para receber uma parcela do pagamento. Era assim. Era lindo! Lá estava o dinheiro já separado. Era só pagar. Não tinha financiamento no banco. Uma situação que cheirava a credibilidade.
Muitas vezes, da janela, eu via passar os carros com a liberdade de enxergar, coisa que, antes, não tínhamos, num apartamento de fundo. O JK, por exemplo, era um carrão. E lá vinha a minha mãe falar bem do presidente Juscelino e da “implantação da indústria automobilística no Brasil”.
Eu podia ver que o mundo tinha sua dinâmica própria, muito especial e enriquecedora, as pessoas estavam realmente vivas, envolvidas com as suas famílias e a vida era regular, os horários de aula, de trabalho. Tudo funcionava.
Eu ia sozinha ao PEG PAG no Largo do Cambuci comprar algum mantimento para casa. Era supermercado simples, mas ainda novidade fora de São Paulo. Quando vinham nos visitar, os parentes de Minas ficavam extasiados com um mercado que só se pagava no final, de uma vez só. Eu achava o máximo, em termos de liberdade, ir até lá. Ía à farmácia do Luís comprar remédios para o meu pai, comecei a aprender a falar com as pessoas, olhava os vizinhos com curiosidade e respeito, querendo saber mais, me tornar adulta e entendida do comportamento humano.
Aliás, nada mais complexo e encantador que o comportamento humano!
Numa tarde, voltando para casa, minha mãe e eu, com um pacotinho de café Moka moído na hora, com aquele cheiro inebriante, uma vizinha, senhora viúva, exclamou para minha mãe:
– Sem marido a gente vive, mas sem café…
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