Meus amigos, cheguei de Bauru em 1958, aos 7 anos de idade, e fui morar na Rua Sud Mennucci na Vila Mariana, travessa da Rua Domingos de Moraes, em frente ao antigo ABC e da também antiga estação de bondes. Na época, minha tristeza era de não ter televisão na minha casa. Morria de vergonha de ir assistir a sessão Zig Zag na casa dos outros. O pessoal de idade daquela época olhava meio feio para gente, tão diferente de hoje, quando os meninos vinham brincar com os nossos filhos. No grupo escolar Marechal Floriano eu escutava meus amigos falando que tinham visto na TV Ivanhoé, O Homem de Virgínia entre outros seriados e ficava envergonhado porque não tinha TV. Ora, ficava mesmo, hoje sei que não tinha nada a ver não ter TV, mas na época…
As brincadeiras de criança se resumiam em jogar futebol num campinho de terra, jogar bafa (figurinha), jogar botão e bolinha de gude com quatro caçapas. Nunca jogamos triângulo, porque era jogo de rapelar as bolinhas.
Estávamos na época das figurinhas da Quigol, de tão bela lembrança. Minha primeira lição de humildade veio delas: eu tinha um maço de figurinhas, que precisavam de elástico para segurá-las, e vi um menino com somente uma figurinha. A cobiça subiu à minha mente e falei: vamos jogar? Só para se ter uma idéia, depois de 20 minutos o moleque me rapelou todas as figurinhas. Era todo o meu tesouro. Que tristeza. Mas, o menino me devolveu todas as figurinhas e tirou um sarro daqueles.
O jogo de bolinha de gude consistia de jogar Biroca, ou seja, são feitos quatro buracos – as "birocas" – na terra. Os jogadores (de 2 a 4) jogam suas bolinhas até a primeira "biroca". Quem ficar mais perto dela, iniciará o jogo. A partir daí, deverá percorrer todo o "circuito", ou seja, colocar sua bolinha em cada um dos buracos. Após isso, poderá "matar" a bolinha dos adversários, ou seja, atingirá a bolinha do adversário com a sua, eliminando-o do jogo. Se errar a "biroca" ou a bolinha do adversário, "perde a vez". E assim por diante… (vai buscar….rs)
O que eu gostava mesmo era de jogar botão com as tampas de celulóides dos relógios. Os melhores jogadores eram os menores, davam cada "encoberta" nos goleiros. Lembro-me que usávamos celulóides dos relógios Omodox, Lanco, Mirvaine, etc. Antes mesmo de jogar botão, sem ter o que jogar, criei um jogo conforme relato: eu pegava uma caixa de fósforos, usava a parte interna dela e dava "chutes", fazendo uma espécie de alavanca, imitando o movimento de um jogador. A bola era a bolinha de gude. Improvisava o gol, podia ser uma caixa pequena e o goleiro, era a tampa de bala de cevada da Sonksen, um tanto ovalada. Chutava com a mão direita e tentava defender com a mão esquerda. Às vezes usava uma pequena toalha de tricô como rede do gol.
Depois disso mudei-me para a Avenida Jabaquara, perto do campo de futebol do Estrela da Saúde. Cheguei a ver o Estrela disputar um jogo da Copa São Paulo de 1962 contra o Taubaté.
Na época o treinador era João Atala que depois foi dirigente da Federação Paulista. Cheguei a jogar no mirim do Estrela. Não passei disso. Já estava com 12 anos e estava começando a época de ir ao Parque São Jorge ver o Corinthians. A primeira vez foi emocionante. Os filhos dos donos da padaria São Luis da Rua Carneiro da Cunha e eu, pegamos o ônibus da viação Tupi, o Parque São Jorge e fomos ver, em 07 de setembro de 1962, Corinthians 7 x 1 Ferroviária de Araraquara. Manoelzinho fez 4, Nei 2 e Silva 1. O árbitro foi um austríaco, Sthephan Walter Glanz.
Desta data em diante houve muitos jogos, e quando cheguei aos 17 anos comecei a dividir o Corinthians com os bailinhos. Por enquanto paro por aqui. Mas esqueci-me que na Vila Mariana tinha um amigo da minha idade, de 7 anos, são-paulino, filho do diretor das Ceras Parquetina, que comia palitinhos de chocolate e tomava coca-cola em plenos dias de semana. Para mim isso era só em aniversários. E seus brinquedos? Tinha um de índios e soldados que tinham encaixes perfeitos nas selas dos cavalos. Tinha blusa de gola V com as cores do tricolor e acho que nasceu daí os torcedores que vemos hoje do São Paulo. O time era o maior, só eles podem… Sabem como é, não?
e-mail do autor: [email protected]