Na confeitaria Di Cunto

Conseguimos chegar ao destino: padaria e confeitaria Di Cunto, no bairro da Mooca, depois da felicidade de termos conhecido e nos apaixonado pelo Memorial do Imigrante, bem próximo dali.
A confeitaria Di Cunto é belíssima, uma das mais tradicionais da cidade de São Paulo. Proveniente da Itália, Donato di Cunto deveria ter aportado em Montevidéu, mas, na condição de iletrado, acabou mesmo desembarcando no porto de Santos, com todas as dificuldades possíveis, ainda no final do século XIX. Em março de 1935, em meio a inúmeras adversidades, fundou a confeitaria que leva o seu nome, que é um primor em delícias e história.
Em primeiro lugar, a Di Cunto é um retrato maravilhoso da cidade, traduzindo o espírito de luta e empreendedorismo do trabalhador italiano, ajudando a formar o bairro operário da Mooca, com as diversas fábricas e as vilas com as modestas moradias dos trabalhadores, normalmente, as cores das casas obedecendo à cor original da fábrica, como sendo uma exata extensão da condição de proletário.
A confeitaria tem cheiro de memória familiar, alguma coisa feita com um sacrifício muito grande, mas com as mãos cheias de amor e encantamento pela vida. É sempre vital se encantar, e eu muito me emocionei ao ver nas paredes as fotos do patriarca, da família, da primeira loja, das coisas do tempo.
Pedi para que a gerente me permitisse fotografar o ambiente. Expliquei a situação: sou paulistana, mas moro há mais de vinte anos longe dali etc e tal e ela se convenceu – quem sabe se comoveu com o brilho que eu carregava no olhar, tamanho o amor que tenho pelo assunto: imigração.
As fotos estão aqui, armazenadas no computador e já foram mostradas para vários outros, como eu, descendentes de italianos. E confesso que as lágrimas me vêm à tona só de pensar nas dificuldades pela sobrevivência, nas incertezas e o nunca perder de vista a vontade e a alegria de viver.
A dificuldade maior e mais amarga que a família Di Cunto passou foi, obviamente, por ocasião da II Grande Guerra (1939-45), quando faltava, sobretudo, o trigo, matéria-prima básica, e ingredientes estranhos eram adicionados à massa, provocando uma má qualidade nos pães e pastifícios. Além do mais, quantos eram os devedores? Trabalhadores que, marcando as despesas na caderneta para quitarem suas dívidas no final do mês, acabavam nunca mais aparecendo…
Hoje é possível sentir a beleza de uma empresa familiar, em que a palavra zelo tem o seu sentido mais amplo, no atendimento, no sentido da dedicação na elaboração dos doces, pizza, calzones, panetones e o que for. E o que eu senti verdadeiramente foi paixão pelo trabalho, pela manutenção da história, um olhar atento aos clientes, olhar amoroso, de disponibilidade, de gosto de vida, do prazer pela boa mesa.
Fiquei feliz ao fotografar o patriarca Donato. O jeitão dele me lembrou o meu avô Sartini que, na realidade, só conheci pelas fotografias. Comprei panetones, que foram suave e lentamente digeridos, como num ritual.
Cheguei a guardar propositalmente um deles, para que, quando a minha mãe voltasse de viagem, comesse comigo, conversando sobre as memórias, afinal, ela chegou a São Paulo com o final da Guerra. O panetone sendo saboreado com o tradicionalíssimo Café da Serra – o melhor da Terra – desde 1901. É bom lembrar que foi o senhor Donato o responsável pela introdução do panetone no Brasil.
Olha só o que diz o senhor Mário Di Leggi, cliente da confeitaria há quase quatro décadas:
A entrega era feita numa carrocinha, as ruas eram todas de barro. Depois, veio a evolução do automóvel e a entrega passou a ser feita através de furgão. Mais tarde, a gente mudou o sistema de vida e passou a vir comprar aqui.

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