Relembrar a infância! Ah, como é fácil! Pois foi uma infância esplendorosa!<br><br>Impressionante como somente depois de adultos podemos ter a certeza de que tudo aquilo que passou foi inesquecível, além da mesma, mas infeliz certeza, de que aqueles momentos não voltam mais.<br><br>Nasci no ano de 1977, na Zona Sul de São Paulo. Morava em São Bernardo e com um ano de idade meus pais se mudaram para o Conjunto Habitacional Padre José de Anchieta. O ano era 1978. Primeiros moradores de um bairro que então surgia, na época meu pai podia escolher o local de moradia no conjunto com facilidade, e optou por um local onde achou ser o melhor. Segundo ele, tinha medo das fortes chuvas de verão, então optou em escolher uma rua de ladeira. A casa ficava bem lá em cima.<br><br>Na época, as ruas não tinham nome, apenas números, e por lá, até hoje, trinta anos depois, todos ainda a conhecem como Rua "6", vulgarmente conhecida como Mário Calazans Machado.<br><br>Apesar de na época estar com apenas um ano e meio, mais ou menos, posso me lembrar precisamente de detalhes de nossa casa nova, como as paredes de tijolos pintados de branco, o piso paviflex emborrachado da cozinha e da copa, do forro de gesso branco. Os fundos de nossa casa davam num enorme barranco que se encontrava com a vizinha da Rua "5". Por horas cheguei a incomodá-la, vezes por pedrinhas e pedrões, até manilhas de PVC de nossa construção; tudo era arremessado lá! Lembro-me com detalhes dos cabelos negros encaracolados da vizinha da rua de baixo, a me xingar: “seu moleque filho da mãe!”.<br><br>As brincadeiras e intrigas com meus irmãos e vizinhos, nossa, como tinha pedra naquele lugar pra atirar! Lembro-me do cheiro das fortes chuvas de verão que batiam na rua, até então não asfaltada, cheiro de lama que escorria com a enxurrada. Parte dela adentrava o quintal de minha casa, formando um redemoinho. Era uma sujeira só! Tinha medo, pois a rua parecia uma cachoeira, com toda aquela água provinda de uma viela que ficava ao lado dos prédios, numa época em que ainda não existia o mercado D'avó.<br> <br>Quando asfaltaram a rua, as coisas melhoraram bastante. Foi o início de novas brincadeiras: o primeiro velotrol, a bicicleta e os carrinhos de rolimã feitos pelo meu pai. Foi só o começo de uma infância inesquecível! Pular corda, jogar taco, rouba-bandeira, armar a rede de vôlei, esconde-esconde (mas não vale se esconder no Jumbo Eletro, hein!), pega-pega, futebol.<br><br>Às noitinhas, ia pra casa pra tomar banho, aos gritos de minha mãe: “Ôôoo Rodrigooo! Vem já pra casa!”. Depois do banho, podia sair mais um pouquinho à noitinha. Ficávamos na calçada – esta era a condição -, e jogávamos bola de gude, rodávamos peão e, quase sempre, com as meninas, o momento mais esperado: brincar de pêra-maçã-salada mista, na época chamado de "É esse?". Podíamos dar nossas primeiras bitocas na boca, com toda aquela inocência, que hoje não existe mais.<br><br>O primeiro dia no prézinho, na Osvaldo Vale Cordeiro, aqueles shorts vermelhos apertando as coxas, os coleguinhas chorando, o gosto da primeira merenda, achocolatado de caixinha, pão e banana! Até me lembro de meu primeiro amigo inseparável: Manoel. Nunca mais o vi. As festas juninas eram inesquecíveis; o cheiro delas ainda está no meu nariz, basta fechar os olhos e sentir…<br><br>Quem poderia se esquecer das primeiras séries no Amador Arruda Mendes? Só Seu Cláudio, que guardava a escola, e outros tantos personagens famosos de lá, como o Toninho da cantina, com o seu imbatível pão com molho no saquinho – vendia que só! A querida professora Rose, da 4ª série A; que carinhosa, excelente educadora, também nunca mais a vi! Quem me dera. A fanfarra embalava os sábados à tarde daquele povoado. Hoje?<br> <br>Dos tempos de ginásio e colégio, do bom vôlei na quadra da escola, os primeiros namoricos, dos bailinhos entre as ruas da casinha, nos embalos de "Super Sonic" e "Sally, the Girl"! Dos amassos no estacionamento do Jumbo Eletro, das matinês de domingo na Toco – quantas vezes não voltei a pé, era incrível!<br><br>Que bom poder estar aqui, matar a saudade, sonhar com este tempo e com as pessoas maravilhosas que fizeram parte desta infância incrível, a qual não posso proporcionar ao meu filho nos dias de hoje.<br><br>Hoje percebo o quanto fui injusto em reclamar que não era feliz. Eu fui, e muito! Saudações e abraços aos meus queridos amigos de outrora, que povoaram o meu ser e me fizeram ser quem sou! Obrigado, Cohab!<br><br>e-mail do autor: [email protected]