Myrtes, a incendiária

Nos últimos anos da década de 1960, (67 ou 68), já trabalhando como vendedor do Matarazzo (deixei o desenho em 65, pela mesma empresa) e na posse de um fusquinha 66, adquirido pelo consórcio da Atlética Matarazzo que, numa manobra infeliz da diretoria, redundou pra mim a grande vantagem de ficar com o melhor carro produzido pela Volkswagen (na época). Foi assim: Na reunião onde os consorciados davam seus lances, participei interessado que estava, pois, a quase dois anos de vendas ainda fazia a clientela, de norte a sul e de leste a oeste, de condução. No momento em que punha no papel meu lance, sentado, percebi pelo rabo dos olhos, que alguém me espionava por cima de meus ombros.
A mesma pessoa deu a volta na mesa e fez os mesários saberem o montante da minha opção, antes de eu entregar a papeleta. Com essa informação poderiam, tranquilamente, dar um lance superando o meu. Esperei a divulgação de todos os lances para saber quem iria levar o carro para depois cair em cima do membro da "sacra famiglia". Estes consórcios eram feitos "a l'uso nostro", isto é, ao tradicional e bem aceito conceito da "máfia" com direito a "capo mafioso", todos os funcionários do Matarazzo. Os consórcios tinham a grande vantagem de não ter nenhuma despesa, só as prestações do carro, pois qualquer custo adicional ficava por conta da Atlética, cuja condição de associado, já prevista na sua admissão na empresa, era compulsória. Entrou no Matarazzo, já era sócio e a cobrança da mensalidade, no primeiro salário. E era muito bom, tinha de tudo, uma grande praça de esportes na Casa Verde e… Isto é outra história.
O término da coleta de opções deu como lance maior, surpreendentemente, o meu. Como agiu o interessado, de princípio, não entendi, mas logo fiquei sabendo.
Estávamos no mês de dezembro de 1966 e a Volkswagen, com enorme estardalhaço, preparava-se pra lançar, em janeiro, o fusca 1967 com a potência alterada pra "1.300". Portanto, em janeiro, com um mês de uso, meu carro já seria "do ano passado" de "1.200". Precisando do carro, não me importei. Nos próximos 06 anos descobri que tinha adquirido o melhor (e último) carro fabricado pela Volkswagen. Os "1.300" que entraram, deram a maior dor de cabeça aos seus proprietários, problemas de fabricação, não lembro o que foi. Imaginem a decepção do "espertinho" da Atlética… Se tivesse conservado meu "1.200", teria até hoje um carro excepcional.

Mas, como disse, estava trabalhando com o carro e um dia, na parte da manhã, tive que passar pela Rua do Gasômetro, onde eu morava, cruzando o bairro em direção ao centro, notei que passou por mim um carro de bombeiro, com sirene exigindo passagem, logo na descida do viaduto Gasômetro, vindo do largo da Concórdia. Morava quase vizinho a Cia. de Gás, num prédio de 07 andares, eu no terceiro. Deduzi que o incêndio deveria ser ali, nas cercanias e como estava perto de casa, resolvi acompanhar o carro de bombeiro que, paulatinamente, diminuía a velocidade. Para minha surpresa, parou em frente ao meu prédio. Encostei o carro e tentei ir pro meu apartamento ver onde era o sinistro. Não me deixaram entrar; disse ao soldado que morava ali e que minha mulher, com minha filha estavam lá. Maurício e Moacyr estavam na escola. Na discussão com o bombeiro, aparece a Myrtes trazendo a Maria pela mão, vindo da farmácia da Rua do Lucas. No susto, abracei as duas que estavam chorando.
Quis saber o que tinha acontecido e Myrtes contou, para mim e para o bombeiro. O "incêndio" tinha sido no nosso apartamento. Como a Maria estava com forte infecção e com febre, foram junto com minha cunhada, que morava no mesmo prédio, até a farmácia providenciar remédio, orientadas pelo médico, por telefone. A menina não parava de chorar, saíram e na pressa minha mulher esqueceu um peixe fritando na frigideira. A fumaceira que essa fritura provocou era de tal forma volumosa que nem o incêndio de San Francisco superava.
Saia fumaça pela porta fechada, inundando o corredor e assustando os vizinhos, pelas janelas, pelo vão interno, onde se localiza a lavanderia, pelo elevador, enfim, provocando a maior confusão da "paróquia". Os vizinhos assustados batiam na porta e como ninguém atendia pensaram no pior. Chamaram os bombeiros que de imediato arrebentaram a porta, apagaram a fritada, viram que não tinha ninguém, aliviou a todos.
Uma experiência inusitada, onde um peixe frito não é para quem o prepara, mas sim emoção pra toda vizinhança.

e-mail do autor: [email protected]