Mula sem cabeça – elas existem…

Noite típica do mês de junho, frio, céu claro e salpicado de estrelas…

 

Já havíamos terminado o rosário para Nossa Senhora do Carmo e em pequenos grupos passeávamos pela chácara, cedida pela minha prima Luzia Monitório para sediar as reuniões da TFP em Itaquera. O tema preferido das conversas nestas noites eram as estórias de assombração.

 

Após o chá, acompanhado de deliciosos biscoitos que nós mesmos preparávamos em um forno a lenha, que tradicionalmente encerrava as nossas atividades no domingo, chegou a hora de voltar para casa.

 

Naquela noite voltei de carona no Jeep de capota de lona do Paulinho Okabe, filho do dono da maior e mais tradicional relojoaria do bairro. Certamente fazia mais frio dentro do Jeep que lá fora, pois o vento entrava pelas frestas entre as lonas e rasgava os nossos rostos, nos mantínhamos aquecidos entoando cantos e marchas militares.

 

Como de costume, Paulinho me deixou na estrada de Itaquera ao lado do campo do Democrático. Deste ponto até minha casa era um pulo, uns 300 metros, sendo 200 deles o brejo do Espinheiro, onde hoje é o Parque Linear do Rio Verde, um lugar ermo de total escuridão, pois sua trilha era encoberta pelas copas dos espinheiros do brejo.

 

Era prender a respiração e atravessar pela trilha entre os espinheiros, passar pela pinguela do córrego e já estaria a cem metros de casa. Outra alternativa seria esticar a carona até o centro de Itaquera e retornar pela Rua Tomazzo Ferrara até o morro do Falcão, percurso este de mais ou menos um quilômetro e meio.

 

Despedi-me do pessoal, respirei fundo, tomei o máximo de ar que podia e sai em disparada pela trilha deitando o cabelo.

 

Eis que aconteceu.

 

Faltando apenas mais duas curvas para chegar ao córrego, notei o meu caminho obstruído por algo grande, branco e que em meio a neblina, que a esta hora já havia baixado, não dava para decifra do que se tratava. Parei e procurei olhar por ângulos diferentes, tentando identificar o que seria. Percebia o vulto movimentar-se lentamente de um lado para outro parecendo flutuar sobre o trilho. Podia distinguir as pernas e parte do corpo, porém não conseguia ver a cabeça.

 

A respiração agora me vinha ofegante e o coração em taquicardíacas batidas produzia uma enorme pressão sobre meu peito. A adrenalina derramava e fluía em minhas veias como as águas ainda limpas daquele córrego.

 

Não tenho dúvidas é uma mula sem cabeça.

 

E agora o que fazer. Voltar e tomar o caminho da Tomazzo Ferrara, ou confiar em minhas pernas velozes e passar rapidamente ao lado dela e cruzar a pinguela, pois certamente ela não saberia como passar por um único tronco de arvoro debruçado sobre o Rio Verde.

 

Optei pela segunda, pois já era tarde e se chegasse atrasado em casa meu pai não abriria mais a porta, e certamente não iriam acreditar em minha estória.

 

Peguei no bolso meu crucifixo, coloquei o escapulário de Nossa Senhora do Carmo na boca e corri o máximo que podia.

 

Passei por ela.

 

Era a égua pampa do seu Gabriel Mautone, de nome Baronesa. Esta égua era negra com malhas grande brancas do tipo dos cavalos índios dos filmes de “Cowboy”. Sua anca bem como as patas traseiras eram totalmente brancas e se olhada por de traz parecia realmente um fantasma sem cabeça.

 

Não contei o ocorrido para ninguém na época, pois como poderia eu ter medo de uma mula sem cabeça.

 

Vocês estão sendo os primeiros a conhecerem este ocorrido, de 1965, que agora me sinto a vontade em contar.

 

“Este não foi o caso, mas elas existem."