Minha Vó II

Quero agradecer a todos do fundo do coração (gostaria de e ainda vou conversar com todos) pelas mensagens e cumprimentos que recebi pela história da minha Vó, agora vou escrever sobre ela mais um pouco. Morou em Jacupiranga, Sorocaba, e está há 55 anos em São Paulo, na mesma casa no Jardim Marajoara (antiga Vila Sofia, entre a antiga Frei Caneca, atual Sócrates, e a Avenida Nossa Senhora do Sabará). Ela sabe até o numero do ônibus, que é o 103, que fazia o trajeto até Santo Amaro, teve 11 filhos, hoje 5 vivos, 21 netos, 26 bisnetos e 2 tataranetos, sendo que quem está até hoje a seu lado e cuida muito bem dela é minha querida tia Ilady, com seus 84 anos, e com problemas de saúde (às vezes), mas Deus sabe o que faz. Gostava muito de dançar, sempre comeu pouco, teve alguns namorados, diz que o namoro de hoje é uma pouca vergonha, teve várias amigas que foram escravas e lembra o nome delas até hoje, sabe datas de nascimento de todos os netos, bisnetos quase todos, sabe recitar poemas. Seu marido, meu Vô, era compositor, maestro, político, comerciante, enfim, dizia que tinha 7 profissões e 14 necessidades. Meu querido Vô chamava-se Angelo Zanoni Giglio, aprendi muito com ele, pois tinha um comércio no cruzamento da Avenida Nossa Senhora Sabará com a Avenida Washington Luiz e posteriormente na Avenida Nossa Senhora do Sabará, na Via Anhanguera, onde os fregueses compravam na caderneta, pagavam no final do mês, era quase tudo a granel, feijão, arroz, sabão em pedra, papel higiênico (só primavera) e guri. Aliás, conheci o dono dessa fabrica mais tarde, senhor Vincenzo, outro italiano. Ah! Mortadela Bordon, salsicha do Frig. Eder. Depois eu ia entregar num carrinho de rolemã (será que ainda existe carrinho de rolemã?), ganhava caixinha, meu Vô me dava uns trocados. Tive o privilegio de conhecer todos meus avós, gostava e gosto, pois ainda tenho uma, com todos tive um relacionamento ótimo, talvez por ter sido o mais velho de um lado e o terceiro dos netos do outro. Eles não tinham cultura, mas muita sabedoria, como era peculiar daqueles idosos que por aqui passaram. Minha Vó fazia barra de calças, consertava minhas roupas, fazia aqueles bolinhos de chuva e macarronada todos os domingos, Páscoa, Natal. Era festa sempre, pois o maior prazer da minha Vó era nos ver felizes. Minha avó já passou poucas e boas na vida, como fala até hoje. Tem aqueles ditados dos antigos, como falavam, torce o pepino enquanto é pequeno, corta-se o mal pela raiz, antes só do que mal acompanhado, colhemos o que plantamos e por aí vai… Guardo boas lembranças deles, inclusive do meu pai, que faleceu aos 56 anos. Pois bem, minha Vó fraturou o tornozelo aos 103 anos, colocou pino, há uns dias atrás disse que não estava bem, minha tia levou-a ao hospital, estava com sopro no coração, colocou marcapasso externo, ficou uns dias na UTI, saiu, foi para o quarto e hoje está em casa. Ela anda com um tripé, tipo muleta, só para não perder o equilíbrio.
Umas das qualidades de minha Vó são a fé em Deus, a esperança, a simplicidade. Ao longo desses anos nunca ouvi ela maldizendo a vida, porque a vida nos trás percalços também.
Tenho muito orgulho de dizer que tenho Vó e dizer a todos: cuidem dos idosos, mesmo que seja em pensamento e orações, pois eles com certeza jamais nos abandonarão.
Como disse Oscar Niemayer: os jovens sabem ler livros sobre carreira e crescimento profissional, mas não sabem o que acontece em sua volta.

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