Minha vida no Brooklin Paulista

Por falar em meu bairro, minha vida, cresci no bairro do Brooklin Paulista, quando meu noivo e eu resolvemos nos casar, passamos a procurar uma casa na região, vimos muitas, mas nenhuma do nosso agrado ou poder aquisitivo. O dia do casamento aproximava-se implacavelmente e ainda não tínhamos onde morar. Certa vez, minha tia Yvette, após nos fazer uma visita, estava indo embora pela Rua do Ouro (hoje Prof. Henrique Neves Lefévre), paralela à Rua do Nickel onde eu ainda morava, quando viu uma pessoa martelando uma placa de vende-se na porta de uma casa. Como é uma pessoa de atitude, parou o carro, abordou o Senhor, que dizia chamar-se Newton e ser o proprietário da casa. Sem mais rapapés minha tia pediu ao senhor que retirasse a placa porque sua sobrinha iria comprar aquela casa. O homem, lógico, achou que a mulher estava brincando com ele, mas minha tia afirmou que ainda nesse mesmo dia eu iria ver a casa. Pois não é que sua premonição se concretizou! Realmente adoramos a casa e era aquilo mesmo que estávamos procurando, principalmente por ser muito perto da casa da minha mãe, chamamos meus futuros sogros que também aprovaram a escolha e fechamos o negócio em tempo recorde, o antigo proprietário nem havia colocado a casa realmente à venda. Era destino, o bairro me pertencia, ou, melhor ainda, eu pertencia à esse bairro com todo o meu coração.
Uma história interessante é a do verdureiro que servia minha mãe e toda a vizinhança. Desde que eu me lembre por gente, certo dia da semana, toda semana, lá estava ele. Vinha empurrando o seu carro de madeira e trazendo verduras e frutas de boa qualidade. O chamávamos de Senhor Antônio, era um português muito simpático que gostava de agradar as crianças e até nos levar para passear no seu carrinho. Acontece que este senhor prosperou tanto que conseguiu montar uma padaria quase em frente ao local em que eu fui morar depois de casada e em frente à padaria havia um terreno baldio onde ele veio a construir uma belíssima casa, tornando-se, portanto, meu vizinho, com toda a sua família.
O Brooklin é um bairro de gente boa, de coração aberto. Eu, casadinha de nova, sem experiência nenhuma tive a sorte de ter por vizinha uma senhora chamada Dona Dinorah, que me acudia sempre que eu precisava, até cebola ela me passou pelo muro para que eu não decepcionasse meu maridinho em meu primeiro arroz. Depois tive meus filhos e o carinho que ela sentia por mim estendeu-se sobre eles também.
Quando eu era pequena, esta rua que eu fui morar depois de casada, era de terra, terminava em uma ponte sobre o córrego do cordeiro e a professora de ciências do Mário de Andrade nos mandava pegar girinos para que observássemos sua metamorfose ao transformarem-se em sapinhos. Nessa época jamais poderia imaginar que minha vida adulta iria se desenrolar exatamente nessas paragens.
Por falar na pontinha que ficava sobre o rio, lembrei-me de outra história que até parece um conto de pescador, mas que foi verdade mesmo. Casei-me em 1974, a Rua do Ouro já era asfaltada, mas ainda não existia a Vicente Rao, portanto a tal ponte de madeira ainda se encontrava no final da minha rua. Por volta de 1975, minha filha Michelle havia acabado de nascer e eu estava em casa recebendo a visita do meu primo Ronaldo quando ouvimos um barulho estarrecedor do lado de fora da casa. Meu marido e meu primo correram para a rua. Nós possuíamos um corcel azul marinho, que carinhosamente chamávamos de Apolônio. Eu era apaixonada pelo Apolônio. Meu marido era loiro, de olhos azuis, ficava lindo na direção daquele carro. Ele testemunhara o flerte, o namoro, nossas viagens, o noivado e o casamento, portanto era muito importante para nós. Qual não foi nossa tristeza ao vê-lo retorcido sobre a árvore derrubada na frente da nossa casa? O guarda noturno veio avisar que havia sido um monza verde em alta velocidade e que nem parara para ver o estrago. Passara sobre a ponte com as quatro rodas no ar. Rapidamente meu marido, meu primo e um amigo entraram no carro de um deles e foram atrás do meliante. Senti muita angústia e medo pela segurança dos três, a Chácara Matarazzo era um lugar ermo e perigoso, nós não sabíamos que tipo de pessoa poderia ser aquela.
Passado algum tempo voltaram, não haviam tido sucesso nem no intento de, pelo menos, anotar a placa do tal veículo, evaporara-se no ar, como se tivesse se desintegrado. Estudando o local no intento de entender por que ele batera em um carro estacionado no meio fio, meu primo achou um pedaço de roda de magnésio, que deveria ter caído da roda do monza na hora do impacto. Ele entregou ao Zé Rolando (meu marido), que por sua vez me entregou e eu o guardei meramente por lembrança do ocorrido, tenho essas manias. Nessa época meu primo trabalhava na Avenida Paulista, nas Páginas Amarelas, no horário do almoço, estava ele atravessando cautelosamente uma das transversais quando avistou, estacionado em frente a uma casa, quando viu um monza verde batido. Aproximou-se, faltava um pedaço da roda de magnésio. Imediatamente ligou para o meu marido perguntando se havia guardado o tal destroço e marcou um encontro no local o mais rápido possível, enquanto isso ele ficaria de atalaia.
Foram atendidos por um senhor estarrecido e incrédulo ao ser esclarecido do motivo que os trouxera até ali. Ligou para o filho, que estava servindo o exército (e portanto não poderia estar na rua na hora do desastre) e pediu sua presença imediata em casa. Ele havia dito ao pai que batera em um táxi, na Avenida Santo Amaro, que estava transportando uma velhinha para o hospital. Fomos reembolsados pelos prejuízos materiais, mas o pobre do Apolônio fora considerado sucata e, portanto, irrecuperável e a minha primeira filha, Michelle, ficara sem o seu leitinho, pois com o susto meu leite secou.

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