Minha primeira namorada no meu eterno amor

Era uma tarde qualquer de um dia qualquer do ano de 1963, bem próximo ao seu final. Eu estava em casa, lá no fim da Rua Tomé Portes, número 28, na Parada Inglesa. Ouvi palmas e fui atender. No portão, três meninas moça espreitavam, uma delas perguntou pelo meu irmão mais velho dizendo-se irmã da namorada dele, e ao saber que ele não estava. Pediu então para que eu avisasse a ele que o tio delas tinha morrido.

A que estava no meio, amiguinha da cunhadinha do meu irmão, era uma gracinha. Cabelos negros, caídos no ombro, olhos negros vivos e ágeis, como os olhos de toda menina de 13 anos. Foi assim que a vi pela primeira vez, aquela que seria a minha primeira namorada.

Landa, ou Landinha, era assim que ela era conhecida. Alguns dias depois deste dia, domando minha timidez a convidei para irmos juntos ao cineminha de domingo à tarde, que acontecia todos os domingos, na capela de São José, perto do Grupo Escolar Frei Antonio Santana Galvão, onde eu e ela tínhamos cursado o nosso primário. Eu de manhã e ela à tarde, o que impediu de nos conhecermos antes. Ela aceitou e naquele domingo, sentamos um ao lado do outro nas cadeiras, ali no escurinho do cinema.

Como eu não sabia o que falar ou o que fazer, não falei nada, apenas coloquei minha mão direita sobre seu ombro, e como ela não reclamou entendi que estávamos namorando, o que não foi mentira.

Assim tive minha primeira namorada, não meu primeiro amor, porque este já tinha desde que nasci. Era o bairro em que a gente morava, a Parada Inglesa. Do nascimento até a maturidade morei neste bairro da zona norte de São Paulo. E suas ruas viram momentos felizes e tristes da minha vida. Quase um ano depois, o namoro com a Landa acabou, mas o amor pela Parada continuou.

Suas ruas continuaram abrigando meus passos e meus sonhos de juventude foram se concretizando pela Avenida Ataliba Leonel, a Rua Professor Marcondes, onde ficava o Clube Atlético Parada Inglesa, a Rua Capitão Sérvio Caldas, onde fui morar já jovem adulto, a Rua Mangaíba, onde morou a primeira mulher a quem realmente amei, a Sidney, irmã do Peres, filha do Seu Macário, carroceiro famoso lá das nossas bandas.

Casei-me com a Luci, filha do Chico dentista e fui morar na Avenida Alvaro Machado Pedrosa, antiga Avenida Internacional. Nesta casa nasceram três dos quatro filhos que tenho. Infelizmente meu casamento com a Luci não deu certo e depois de divorciado, fui morar na Rua Francisco Lipi. Onde chorei as mágoas de um amor fracassado.

Este bairro me viu criança, nele tornei-me jovem e amadureci. Nele sonhei meus sonhos. Ele viu minha ilusão e minha desilusão. Hoje, infelizmente, dadas as forças da vida, não moro mais nele, mas sempre que posso vou até lá, porque meu amor por este lugar é eterno enquanto em mim a vida teime em permanecer. De vez em quando, vejo uns caras do meu tempo, outros nunca mais vi e nem sei onde estão, e outros já não estão mais entre nós. Mas tenho certeza que em algum tempo, espaço ou dimensão qualquer no qual um dia poderei encontrá-los, abraçá-los e lembraremos juntos dos bons momentos que vivemos na Parada querida.

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