Minha estreia no Bando de Loucos!

Dizem que corinthiano nasce sofredor, mas não me lembro de sofrimento nenhum pelo meu clube do coração até o dia em que eu ganhei um presente de aniversário inesquecível: acompanhar meu pai pela primeira vez ao estádio! E a partida escolhida não poderia ser melhor. O segundo jogo da final do Campeonato Brasileiro, no dia 16 de dezembro de 1990. Eu tinha acabado de completar dez anos e cada vez mais o meu interesse por futebol aumentava. Já conhecia os jogadores, fazia análises de cada partida, mas sempre no sofá de casa! Ir ao estádio, era a realização de um sonho. <br><br>Chegou o grande dia! Minha mãe, apreensiva, acenava da porta com as recomendações de sempre. E lá fomos nós para o Estádio do Morumbi. Fui devidamente "fardado" com a camisa do meu maior ídolo no time, o goleiro Ronaldo (tenho esta camisa até hoje, e guardo-a com muito carinho). Na chegada à região do estádio, já se ouvia a torcida corinthiana confiante e empurrando o time desde o lado de fora: "meu primeiro contato com a gloriosa torcida alvi-negra, e hoje eu serei mais um nesta nação para cantar meu amor pelo Corinthians!". Estávamos próximos à rampa do estádio (naquela época não havia divisão de setor, azul, laranja, etc) e a fila era gigantesca. Eu estava ansioso para entrar. E o sol castigava a gente naquela tarde sem uma nuvem sequer no céu.<br><br>Depois do primeiro jogo da final contra o São Paulo, em que o craque Neto bateu uma falta majestosa no comecinho do jogo e colocou a bola na cabeça do Wilson Mano, garantindo a vitória do Timão por 1 x 0, estávamos a um empate do título mais importante da história do clube. Eu pensava sem parar: "nada pode dar errado hoje!". A gente sabia que o time do São Paulo era muito forte, muito preparado, com jogadores como Raí, Elivelton, Zetti e Cafu. Nós não tínhamos grandes estrelas, só mesmo a raça corinthiana de sempre.<br><br>Entramos no estádio, mais ou menos 30 minutos antes do início da partida. Nunca vi uma concentração de pessoas tão grande! Em cada degrau da arquibancada, havia pelo menos dois torcedores espremidos. Eu parei na frente do meu pai, que começou a ficar preocupado com o empurra-empurra.<br><br>Um torcedor da Gaviões da Fiel passou com tinta na mão e perguntou ao meu pai se ele poderia pintar o meu rosto. Eu sorri para o meu pai na hora e disse: "Pode sim"! Com o rosto pintado e pronto para torcer pelo meu time, vi a festa mais bonita que eu havia presenciado até então: a entrada dos jogadores em campo. Não se ouvia mais nada, só corinthianos cantando e cobrindo a arquibancada com fitas pretas e brancas. Foi contagiante! Eu e meu pai cantando junto com milhares de outros como nós!<br><br>Vi dois torcedores sendo carregados e a polícia com mangueiras, jogando água para refrescar quem ainda estava aguentando todo aquele calor. Meu pai pediu e eu tirei minha camisa do Ronaldo (que era de mangas compridas) e amarrei na cabeça para me proteger. Estávamos infinitamente em maior número ali. A torcida do São Paulo ocupava uma pequena parte do estádio, enquanto a apaixonada torcida corinthiana dominava a casa do adversário.<br><br>Começa o jogo! Muitos fogos do lado de fora. E a festa continua! Mas em campo… O São Paulo pressiona… Tomei uns quatro sustos no primeiro tempo e o Corinthians se segurava como podia para não tomar nenhum gol. O primeiro tempo terminou e a torcida não parou. Sentir aquela paixão de perto foi uma sensação incrível! Um torcedor magrelo segurava a camisa e um terço na mão bem na minha frente, rezando para o time voltar melhor no segundo tempo.<br><br>Se a oração deu certo ou não eu não sei… Mas aos oito minutos do segundo tempo, Tupãzinho avança em direção ao gol, toca para Fabinho e recebe de volta, mandando no meio das pernas do Ivan. A sobra fica para o Fabinho, que chuta, explodindo nas mãos de Zetti. Iluminado, Tupãzinho vê a sobra de bola e, com um carrinho, empurra para o gol!<br><br>O Morumbi explode! Nunca tinha visto aquilo de perto! Que coisa incrível! Meu pai me abraçava e gritava muito! Naquele momento a gente estava com uma mão na taça! <br><br>Mais pressão no segundo tempo. O São Paulo tentava, mas o Corinthians segurava-se com heroísmo. Mesmo com a expulsão do Wilson Mano não cedemos! E aos 35 minutos, ele volta à lateral do campo com uma bandeira do Timão, nervoso como um torcedor, pedindo para terminar a partida! Ele começa a dar a volta olímpica no estádio, deixando cada corinthiano presente no Morumbi completamente maluco!<br><br>Fim de jogo! Delírio da torcida fiel! Somos campeões brasileiros! Acabavam ali as piadas com o “Gigante do Parque São Jorge” de que éramos um time regional! Agora sim, Campeão Brasileiro de 1990!<br><br>Saímos do estádio pouco tempo depois da final da partida. Os corinthianos pelo caminho de volta para casa celebravam seu primeiro título nacional. Eu, orgulhoso por ter visto esta festa bem de perto, chacoalhava minha camisa 1 pela janela, com o rosto todo borrado de tinta preta e branca, sabendo que ali, eu entrava definitivamente para a torcida eternamente sofredora, para sempre!<br><br><br>E-mail: [email protected]